O motorista Vicente Piqueira, 47 anos, transporta estudantes de Barra-Bonita para Bauru. Apesar de não ser efetivo na linha, ele cobre as folgas e tem muitas histórias para contar da convivência com os jovens.
Certa vez, ele conseguiu reconciliar mãe e filha. “A estudante tinha problemas de relacionamento com a mãe. Elas brigavam muito e às vezes a estudante viajava chorando. Um dia ela me falou do problema.”
A partir daí, o motorista passou a ser confidente da estudante que hoje, segundo ele, já está formada. “Aos poucos, fui fazendo ela entender a mãe.”
Um dia, a irmã da estudante procurou o motorista para falar do desespero da mãe. “A estudante havia saído de casa e a mãe estava sofrendo muito. Eu fui falar com ela. Naquele dia a conversa foi longa.”
Passado algum tempo, a estudante procurou o confidente para agradecer os conselhos. “Ela já tinha voltado para casa e se reconciliado com a mãe.”
Piqueira ressalta que assim como há pessoas boas que se tornam amigos, há estudantes mal-educados. “Tem sempre algum que se destaca por ser mal-educado, mas nós já estamos preparados para enfrentar a situação.”
Outro motorista que também tem histórias para contar é o João Francisco Parrella, que há sete anos transporta alunos de Dois Córregos para Bauru. Condutor efetivo de estudantes, ele já se considera parte da família dos alunos que viajam com ele. “Somos uma família. Um ajuda o outro naquilo que é possível. Ouço histórias de amor, brigas de namorados etc.”
Para ele, os jovens o consideram uma pessoa mais experiente. “Eles me procuram para pedir conselhos, especialmente quando o assunto é namoro.”
Ele lembra que as meninas choram quando brigam com os namorados. “Mas no outro dia já resolveram a questão.”
Antônio dos Reis Alves da Silva é outro motorista de estudantes. Faz o trajeto Pederneiras-Bauru há sete anos e conhece o caminho como a palma de sua mão. “Não posso me atrasar nunca, porque os estudantes não podem perder aula e nem provas.”
Ele frisa que o relacionamento pessoal com os alunos é muito cordial e que entre eles há inúmeras afinidades. “A gente acaba participando dos problemas deles. Eles estudam para as provas durante a viagem e nós ficamos aqui fora torcendo para que eles se saiam bem na avaliação.”
Jantar com direito a 'siesta'
Cada motorista espera em média três horas para poder retornar a cidade de origem. Depois de entregar os alunos em suas escolas, eles cumprem um ritual quase que igual em todos os veículos. “Aproveitamos para jantar. Algumas vezes trazemos de casa, outras vezes, compramos um lanche”, conta Antônio dos Reis Alves da Silva.
Para Vicente Piqueira, após o jantar é possível fazer a "siesta". “Eu como e fico assistindo a televisão. O mal é que engorda muito, porque fico parado”, lamenta.
Depois do descanso, eles se reúnem fora do veículo. “A gente conversa, troca idéias e se torna amigo. Os motoristas são amigos uns dos outros. Há aqueles que jogam dominó ou baralho durante a espera”, frisa João Francisco Parrella.