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Jovens criticam campanha para voto

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Um garoto é pego no banheiro num momento constrangedor. A menina tem vergonha do carro velho do pai. A faxineira quebra a guitarra do adolescente rebelde. Mas nem tudo está perdido, pois o jovem entre 16 e 18 anos pode decidir como ele quer que as coisas sejam. Este é o conceito e o mote, no jargão publicitário, da campanha do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio de Janeiro, no ar em horário nobre na programação da rede de televisão de maior audiência no País.

Por mais engraçada e bem-intencionada que seja, a campanha “Fala sério, vota” dividiu opiniões, não agradou seu público-alvo e deixou alguns profissionais e analistas incomodados por conta da maneira como os adolescentes e o voto são mostrados nos três filmes.

O estudante Thiago Luiz de Souza Ferreira, 16 anos, comenta que lembrou-se de tirar seu título de eleitor depois de assistir à propaganda na TV, mas não aprova a idéia de como os adolescentes foram retratados nos filmes. “Foi a campanha que me lembrou que poderia votar, mas ela não me influenciou, mesmo porque achei os três filmes bem ruins. Elas mostram somente um lado irresponsável do jovem, e para você tirar seu título para votar nas eleições, precisa de muita responsabilidade”, diz.

Na opinião da estudante Bruna Silveira Pera, 17 anos, a campanha mostra adolescentes estereotipados e fúteis em situações onde a escolha de cada um é feita sem consciência política. “Eu achei o comercial com a guitarra quebrada o pior dos três. A campanha não mostra os jovens em situações de grande responsabilidade, como é na verdade a eleição. São situações ridículas e a urna eletrônica ali deixa tudo mais contraditório”, afirma.

Escolhas

Para Marco Aurélio Murbachi Teles Machado, 16 anos, a campanha errou ao mostrar o adolescente utilizando a urna eletrônica para fazer escolhas fáceis e estereotipadas. “As escolhas que a gente tem nas eleições não são tão fáceis. Da maneira como eles colocam (na campanha), se você não gostar de algo, é só mudar para melhorar. Você tem de pensar bem antes de fazer sua escolha, e isso eles não mostram. Acabou ridicularizando a importância do voto”, ressalta o estudante.

Breno Negrisoli Ribas, 16 anos, completa que os filmes mostram os jovens fazendo escolhas que beneficiam somente a si próprios. “Todos os adolescentes devem votar, mas conscientes para ajudar a população em geral e não pensando só em si, como nas três propagandas”, aponta.

Os adolescentes comentam que pretendem votar nas eleições deste ano para prefeito e vereadores com dois objetivos: mudar a situação do município e ter a oportunidade de cobrar seus candidatos após a eleição. “Você sempre vê nas propagandas políticas os candidatos dizendo que farão tais e tais coisas, mas todo mundo acaba esquecendo. Eu sempre tive vontade de votar para poder cobrar realmente o que eles vão fazer depois de eleitos”, afirma Marco Aurélio.

Bruna observa que não considera a população consciente no momento de escolher seus candidatos. “Nós que temos a oportunidade de discutir e de ter orientação, devemos votar para reivindicar algo melhor”, declara.

Linguagem

Marcelo Miguel, publicitário e professor de criação publicitária, analisa que a campanha “Fala sério, vota” possui alguns problemas mas é adequada para o público-alvo ao qual se destina. Ele argumenta que as pessoas conscientes de seu papel como cidadão vêem as propagandas como afrontas, pois ela identifica os jovens de maneira estereotipada.

“O público que tem abertura para conversar sobre política na escola e em casa já está atraído e não vê a política como algo ruim. No entanto, a propaganda se mostra válida para abordar uma massa maior de adolescentes, que ainda não têm interesse qualquer na política”, opina.

Segundo Miguel, os publicitários têm dificuldade em elaborar campanhas voltadas para o público jovem, justamente porque é fácil perder o tom e deixar os personagens caricatos. “Uma campanha para jovens sempre fica mais natural quando é feita por um jovem. É o caso da MTV, que tem esse perfil e consegue falar diretamente para o seu público. Quando não se tem isto em mente, a linguagem da campanha acaba ficando forçada demais”, diz.

A campanha

Os três filmes da campanha “Fala sério, vota” tem estrutura semelhante, onde o personagem corrige uma situação que não lhe agrada e confirma o que se segue. No primeiro, um adolescente é flagrado com uma revista erótica no banheiro. “Júnior, o que você está fazendo aí, menino?”, questiona a mãe. O garoto corrige a situação, acionando a urna eletrônica posicionada ao lado do vaso sanitário, e a própria enfermeira da revista entra no banheiro.

Na segunda peça, uma faxineira derruba e quebra a guitarra de um adolescente que, decepcionado, aciona o botão Corrige. Em seguida, entra no quarto o ídolo do garoto, que esmigalha a guitarra no chão, em atitude rock’n’roll, acompanhado pelo proprietário do instrumento.

No último filme, uma garota conversa com um grupo de amigas quando seu pai chega para buscá-la com um carro velho e em estado crítico. Após corrigir a situação, o pai retorna como um “easy rider” sobre uma motocicleta estradeira.

O narrador encerra os três filmes. “Escolha como você quer que as coisas sejam. Se você tem 16 anos ou terá na época das eleições, tire seu título de eleitor.”

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