Abril gelou os ossos de Lula. Maio gela os ossos dos trabalhadores... Avalanche de notícias ruins sucedeu em abril. Culminou com os governadores em Brasília. Chegaram com os dentes afiados e saíram ou com o rabo entre as pernas ou pisando duro. Lula parece que finalmente aprendeu com Malan. Conta Fernando Rodrigues que Lula antes de tomar posse prometeu várias reuniões com governadores. Malan, então, ministro da Fazenda, aconselhou a Palocci: “Evite isso. É impossível entrar numa reunião dessas e não sair perdendo”. Fernando Henrique já recomendara a Lula não fazer reuniões com o ministério todo nem com todos os governadores. Reuniões improdutivas onde o governo sempre perde: as reivindicações tendem a ser infinitas. “Custou, mas aparentemente o governo Lula acabou concluindo que os conselhos tucanos estavam certos. Desidratou-se a reunião”.
Avatar de Lula: reuniões sobre reuniões. Indecisões, incertezas. Testemunha Villas-Bôas Corrêa: “Francamente, tanto esforço, tantas angústias, a mobilização de ministros insones no rodízio das consultas para chegar a tão frustrante e mofino resultado. Aprofundou as olheiras fundas dos ministros da Fazenda, do Planejamento, do Trabalho, da Previdência, da Articulação Política, que rodopiaram em volta do núcleo de duvidosa dureza do Palácio do Planalto, fazendo e refazendo cálculos, buscando fórmulas mágicas para reajuste do mínimo que juntasse as pontas dos compromissos históricos do presidente e do PT com a promessa jurada do ministro Antônio Palocci, sacramentada por Lula, de manter o equilíbrio fiscal para segurar a inflação pela cauda”.
Drama longo para definir os caraminguás do novo salário mínimo. Parto doloroso para apresentar um mirrado filho bastardo: ridículos R$ 260. Com uma tunga de quebra sobre os aposentados. Não se beneficiam do aumento mixuruco do salário família. Tremenda cara de pau para quem prometeu dobrar o poder de compra do salário em quatro anos. Com 1% e quebrados de aumento acima da inflação cada ano, o governo Lula levaria mais 60 anos para realizar a bazófia eleitoreira. Presente de grego do ex-sindicalista aos troianos trouxas, nossos trabalhadores e aposentados da Previdência...
De abril datava a portaria do ministro Ricardo Bezoini, determinando que os sindicatos só poderiam cobrar taxas dos trabalhadores quando eles concordassem expressamente com o pagamento. Medida salutar e correta. Na semana seguinte foi revogada. “Pressionado pela CUT e pela Força Sindical, Berzoini fugiu com a coragem de Napoleão na Rússia. Adiou a vigência de suas convicções para 2005”, segundo Elio Gaspari. Permitiu continuar a sangria sobre os salários dos impostos sindicais, que alimentam a corrupção sindical no País.
Intelectual tem pudor de falar do corporativismo e da corrupção que toma conta da vida sindical brasileira. Muita gente ainda acredita, no fundo da alma, que a classe trabalhadora destruirá as amarras capitalistas que escravizam a sociedade. O viés ideológico diminui a importância da revolução tecnológica que reorganiza em novos patamares as relações capitalistas de produção em escala global. Ninguém fala da simbiose entre os interesses do governo e os interesses dos sindicatos. Tendência acentuada com o governo Lula. Ninguém fala dos repasses de recursos do FAT para as centrais, exigindo a contrapartida do bom comportamento. Convivência antiga. Hoje insuportável. Quando virá a reformar sindical? As propostas do Fórum Sindical para a reforma são escandalosas. Agravarão as tendências corporativas e corruptas da pelegagem sindical.
A Força Sindical oferece festança com sorteios e shows no Campo de Bagatelle em Santana, submetida à candidatura de Paulinho da Silva a Prefeitura de São Paulo. A CUT, atada com Marta Suplicy, oferece festança igual na avenida Paulista. Resultado político lamentável dos anos de atrelamento dos sindicatos ao Estado. Anos de pelegagem ideológica desenfreada. A classe operária não vai, por este caminho, chegar ao paraíso...
O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.