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Dupla jornada: em casa e no volante

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

Não é exagero considerar as bauruenses Dalete Maria Pelissario Sampaio e Tânia Regina Alves Gaijutis Angelo duas “supermães”. Isso porque, além de administrar as tarefas do cotidiano de seus lares e auxiliar na criação dos filhos, ambas ainda trabalham em uma profissão exercida dominantemente por homens: motorista elas são de caminhão.

A rotina delas começa logo nas primeiras horas da manhã. Às 7h, entram no local de trabalho - uma transportadora -, onde até às 10h permanecem carregando e descarregando os caminhões, com capacidade para até sete toneladas, que dirigem diariamente. A partir deste horário, Dalete e Tânia ligam os motores dos “brutos” e iniciam a entrega ou coleta das mercadorias em Bauru e região, tarefa que encerram no “finalzinho” da tarde.

Após encerrarem o expediente na empresa, elas começam outro em casa, quando contam com a indispensável ajuda dos maridos. “É a hora de deixar o volante para fazer faxina e arrumar a comida. Não tem jeito. Mulher trabalha dobrado, mas felizmente o esposo dá uma forcinha”, afirma Dalete. “É mais difícil dar conta do lar que do caminhão, pois nele a gente não ganha salário”, brinca Tânia.

Também é nesta hora que ambas aproveitam para “corujar” e cuidar dos filhos, missão um pouco mais árdua para Tânia, mãe de três filhos pequenos, do que para Dalete, mãe de um casal já mais “crescidinhos”. Só depois disso é que as bauruenses se preparam para o merecido descanso.

Entretanto, engana-se quem pensa que esta corrida rotina torna-se motivo de lamentações para elas. Alegres e simpáticas, Dalete e Tânia enfatizam que são igualmente felizes em casa e, principalmente, com a profissão que escolheram.

Mais experiente na função, que já exerce há quatro anos, Dalete ressalta que o mais gostoso da atividade é a oportunidade de sempre fazer novas amizades. “Graças ao meu jeito brincalhona consigo isso fácil”, destaca. A “novata” Tânia, há nove meses como caminhoneira, também destaca as mesmas vantagens em dirigir um caminhão. “É muito bom, pois cada dia você conhece gente diferente”, diz.

Preconceito

Mas nem tudo é um mar de rosas para as caminhoneiras. Como em toda carreira profissional, a adaptação inicial exigiu a superação de alguns percalços.

No caso de Dalete, o mais complicado foi aprender a rotina do serviço. “Era algo novo para mim, mas graças ao auxílio dos meus colegas de trabalho, que me deram muito apoio, logo me acostumei”, relata.

Já Tânia revela que acostumar-se com o preconceito e o machismo arraigado em muitos homens foi a tarefa mais difícil quando começou na função. “Senti na pele isso. Muitos me olhavam atravessado e falavam que tinha de pilotar fogão e gritavam para sair de perto simplesmente porque era uma mulher no comando de um caminhão”, recorda.

Entretanto, acrescenta Tânia, a situação atual mudou bastante. Em vez das zombarias, a caminhoneira ouve muito mais elogios, principalmente de mulheres. “Algumas até me parabenizam e falam que gostariam de estar no meu lugar”, conta. Dalete também exalta: “As gracinhas eram mais constantes, mas nem ligava e agora quase nem ocorrem”, complementa.

Para elas, a explicação de tais mudanças comportamentais masculinas no trânsito deve-se ao fato de que as mulheres são igualmente capazes de dirigir bem como os homens. “Não devemos nada para eles, pois navalhadas todo mundo comete às vezes”, considera Dalete. “De modo geral, somos mais atenciosas e cuidadosas que eles quando dirigimos”, compara Tânia.

Prova disso é que ambas nunca foram multadas no exercício da profissão. Entretanto, elas só perdem um pouco o bom humor quando o assunto é o trânsito bauruense, que Dalete e Tânia classificam como complicado. Para Tânia, falta educação, principalmente dos homens, para com as mulheres. “Tem alguns que parecem querer passar por cima da gente e nos ignoram nas vias”, afirma.

Já Dalete reclama do desrespeito às vagas destinadas à carga e descarga na área central da cidade, região em que opera diariamente. “A quantidade de vagas já é restrita e, mesmo assim, comumente elas são ocupadas por carros particulares. É pura falta de consideração”, conclui a caminhoneira.

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