O agronegócio brasileiro se tornou nos últimos dois anos a galinha dos ovos de ouro no setor mundial de produção de alimentos. Com um Produto Interno Bruto estimado para 2004, em R$ 537 bilhões (PIB) - segundo projeções da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP) - setores do agronegócio nacional como o complexo carnes e soja vêm desempenhando papéis importantes na pauta de exportações do País e injetando novos dividendos para a balança comercial.
No primeiro trimestre de 2004, somente a comercialização de carne bovina para o Exterior rendeu aos cofres do Brasil um faturamento de US$ 483 milhões. Estes suntuosos números decifram a seguinte conclusão: o produtor rural brasileiro está cada vez mais rico, certo? Errado. Há cinco anos, o valor pago pela arroba do boi oscila sempre entre US$ 15 e US$ 17. Entre janeiro e março deste ano, os preços pagos pelo boi gordo caíram 5,03% e os custos operacionais registraram uma alta de 1,25%.
Sem mencionar que, após a criação do programa de rastreabilidade - Sisbov - pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a indústria frigorífica nacional ainda continua insistindo em penalizar o pecuarista, oferecendo em muitos casos, o valor para a arroba do boi idêntico ao método de cálculo que era utilizado antes da implantação do sistema. O criador fatura, atualmente, por um produto rastreado o mesmo valor de mercado que ele recebia antes da criação do Sisbov, ou seja, o pecuarista produz um animal com a mesma qualidade ou, até mesmo superior, e ganha bem menos, assumindo integralmente a conta da despesa recém-criada. Em alguns casos, seu produto é depreciado por não fazer parte do programa de rastreabilidade. Será que o mais correto não seria criar uma bonificação para o agropecuarista que busca sempre tecnificar a sua propriedade e melhorar a qualidade do seu produto?
Recentemente, a equipe técnica do “Mapa” aprovou a criação do Sistema Nacional de Classificação de Carcaças - antigo sonho dos integrantes da cadeia produtiva da carne bovina - e que promete ser o divisor de águas para a pecuária nacional. Entretanto, corre-se o risco também de ver a mesma cena se repetir novamente, isto é, o pecuarista investe na padronização do seu produto, melhora a qualidade da proteína vermelha para o abate, e na hora de vendê-la, arca outra vez com os prejuízos. Que garantias o criador terá de que o seu produto não vai servir de parâmetros para uma nova desvalorização do mercado da arroba do boi gordo?
Enquanto aguardo esta resposta, penso que o consumidor final sempre irá sonhar que um dia poderá ter um produto de qualidade com um preço real às suas possibilidades financeiras, e o pecuarista continuará imaginando que os seus bois se transformarão, a qualquer momento, em moeda de verdade.
O autor, Luiz Meneghel Neto, é agropecuarista e proprietário da Estância 3M.