Mário Vargas Llosa refletiu sobre a história e sobre a falibilidade dos fatos nela narrados, partindo de uma ríspida troca de apartes - não mais do que dez acalorados minutos de discussão entre Ludwig Wittgenstein e Karl Popper, numa pequena sala da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, onde os dois eram professores, sala em que não havia mais do que trinta pessoas, alunos e professores, inclusive Bertrand Russel.
Popper palestrava. A aspereza dos dez minutos de diálogo com Wittgenstein foi investigada por dois jornalistas da BBC, David Edmonds e John Eidnov, e está registrada no livro “O Atiçador de Wittegenstein - Uma Discussão de Dez Minutos Entre Dois Grandes Filósofos”, registrando que, no momento em que Popper preferia sua fala, Wittgenstein interferiu com um aparte ameaçador e despropositado. A causa desse ato insólito tem raízes no pensamento conflitante desses dois pensadores sobre o sentido da filosofia.
Wittgenstein entendia que não havia problemas filosóficos, mas somente charadas ou adivinhações (puzzles) e o papel essencial do filósofo seria “limpar a linguagem de todas as impurezas psicológicas, lugares comuns, mitologias, convenções religiosas ou ideológicas que lhe turvavam e desnaturalizavam o pensamento”, observou Llosa.
Essa postura, para Popper, era “uma frivolidade intolerável, algo que podia levar a filosofia a se transformar num ramo da lingüística ou num exercício formal desprovido de toda significação relacionada aos problemas humanos. Para ele, essa era a matéria-prima da filosofia, e a razão de ser filósofo era buscar respostas e explicações para as mais prementes angústias dos homens”.
Essa era a essência da questão que causou o conflito entre ambos, cristalizado naquele momento, perante muitas testemunhas. Enquanto Popper falava, Wittgenstein, com um atiçador na mão apontado para o palestrante, gritou: “Vamos ver, dê-me o senhor um exemplo de regra moral!” Popper respondeu: “Não se deve ameaçar os confederencistas com um atiçador”.
“Ouve algumas risadas, mas Wittgenstein, verde de raiva, lançou o atiçador contra as brasas da lareira e abandonou o recinto batendo a porta”. Sobre o fato, de grande repercussão acadêmica, existe essa versão e uma segunda: somente depois que Wittgenstein abandonou o local, é que Popper proferiu aquela palavras.
Na tentativa de descobrir a verdade, os dois repórteres da BBC analisaram a ata da reunião, ouviram depoimentos de pessoas que participaram do evento, mas não conseguiram esclarecer a controvérsia daquele momento histórico: antes ou depois...
Isso fascinou Vargas Llosa, pois “os dois jornalistas da BBC conseguiram... sem se propor, abonar com um exemplo notável, uma velha suspeita do escritor: a de que o componente fictício-imaginário ou literário da história é tão inevitável quanto necessário.
Se um fato ocorrido há tão pouco tempo, com muitos dos atores ainda vivos, pode escorrer dessa maneira entre as malhas da investigação científica e objetiva e colorir-se a metamorfosear-se, por obra de fantasia e da subjetividade, em algo muito diferente - um discípulo fidelíssimo de Wittgenstein presente à sessão... naquela noite, chegou a negar de modo categórico que alguma coisa tivesse acontecido ali -, o que não aconteceria com o relato histórico dos fatos mais pretéritos, nos quais, ao longo dos séculos, as ideologias e as religiões, os interesses surgidos, as paixões e os sonhos humanos foram objetando mais e mais doses de fantasia, até aproximá-los dos domínios da literatura, e às vezes confundi-los com ela?” Isso não nega a existência da história, é claro; apenas salienta que a história é uma ciência carregada de imaginação, concluiu o literato.
O autor, Irineu Azevedo Bastos, é escritor, historiador e colaborador do Ju Machado Escritório de Arte.