Articulistas

Intriga de tesouraria


| Tempo de leitura: 2 min

Lentamente vão se consolidando os sinais de uma pequena recuperação da atividade industrial em diversas regiões do País. Em alguns casos, o crescimento da produção tem sido puxado pelo aumento das exportações e em outros porque algumas rendas voltaram a crescer.

Um sinal muito interessante nos foi dado por um levantamento recente em 120 empresas do Sul e Sudeste do País. Vinte dessas empresas deram reajustes salariais superiores à inflação, o que revela que começa a haver uma recuperação da renda derivada do trabalho.

Não há por que temer pressões inflacionárias em função desses ganhos de salário real, porque ainda são reajustes pequenos, provavelmente inferiores aos aumentos de produtividade que se registraram nessas empresas nos últimos meses. São mudanças imperceptíveis à maioria da população, mas elas já permitem mostrar que não há razão para acreditar que a economia está piorando. Essa sugestão que o Brasil está na iminência de uma crise e não vai conseguir continuar financiando a sua dívida é uma idéia trágica e falsa, disseminada pela tesouraria de bancos e amplificada por lideranças de uma oposição que, quando governo, produziu a dependência que nos deixou vulneráveis nos mercados financeiros.

Apesar de todo o “frenesi”, a cada dia é mais visível que estamos melhorando lenta e tardiamente: os números da produção industrial no primeiro quadrimestre são positivos, depois de um longo período de estagnação da produção. A agricultura continua caminhando muito bem: a produção de alimentos cresceu pelo terceiro ano consecutivo e os agricultores têm obtido substanciais avanços de produtividade graças aos financiamentos do programa Moderfrota, que permitiram a compra de tratores e colheitadeiras e o início de um processo de modernização dos sistemas de estocagem e de irrigação. O Brasil é o único País que ainda tem uma grande fronteira agrícola para desbravar, com 50 milhões de hectares cultiváveis. Estamos utilizando no cerrado o produto de 25 ou 30 anos de pesquisas da Embrapa que desenvolveu novas técnicas de plantio, novas variedades e sementes modificadas.

As exportações brasileiras continuam crescendo e devem atingir o objetivo de US$ 83 bilhões este ano. É por esses caminhos que estamos começando a reduzir a dependência externa. Devemos nos esforçar para exportar US$ 110 bilhões e importar US$ 90 bilhões, deixando um saldo de US$ 20 bilhões nos próximos 18 ou 24 meses, e isso vai reduzir efetivamente a vulnerabilidade. Pela primeira vez, em muitos anos, os instrumentos de política estão sendo acionados na direção que vai produzir o desenvolvimento. A agricultura e as exportações crescem e a indústria, estagnada há uma década, começa a reagir. Cabe ao governo liberar os estímulos para acelerar a atividade do setor fabril, pondo em prática a política industrial e de inovações.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br.

Comentários

Comentários