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"Mulher só consegue ser feliz sem culpa"

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 10 min

O polêmico médico ginecologista Malcolm Montgomery esteve em Bauru na última semana para apresentar sua palestra show “Mulher... suas dores, seus amores”. Defensor da autonomia feminina como principal fonte de saúde e felicidade, ele falou ao Jornal da Cidade sobre as opressões que maltratam a mulher ao longo da vida.

Ele tem 53 anos de idade, 30 anos de profissão e é autor de vários livros. Escreveu “O novo pai” para relatar sua experiência com os filhos após a separação; “Mulher” (que deu origem à série homônima na televisão), que trata da saúde feminina; “Dez Amores”, abordando os relacionamentos; “Toques Ginecológicos”, também voltado para a saúde. E já prepara sua quinta obra - “Dedo na Ferida”, que trata da violência sexual na infância.

Montgomery conta que deparou-se com o dilema emocional da mulher já nos primeiros meses de profissão, quando uma aluna procurou por ele querendo fazer um aborto. “Eu simplesmente não sabia o que dizer para ela e percebi, logo no começo da carreira, que isso ia acontecer muito. Que eu atenderia pessoas com problemas que nenhum protocolo da universidade havia me ensinado a resolver”, afirma.

Confuso, o médico sugeriu que ambos precisavam de acompanhamento psicológico. Então, ele fez um curso de psicoterapia, depois de psicossomática. “Aí eu comecei a olhar a mulher de um jeito completamente diferente”, garante. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Por que você escolheu esse tema “Mulher... suas dores, seus amores”?

Malcolm Montgomery - Tudo o que eu fiz foi para tentar cutucar as pessoas para refletirem e mudar a atitude, se for o caso. Nesse sentido, todo o meu trabalho é polêmico, no intuito de questionar algumas coisas e provocar uma reflexão (...). A palestra mostra claramente que as pessoas não adoecem à toa. A doença tem uma história e as mulheres me mostraram que elas adoecem muito freqüentemente por alguém ou com alguém, no sentido afetivo. E que a doença está muito ligada a uma mentira que a pessoa vive.

JC - Como assim?

Montgomery - Pelo meu consultório, desfilam todo dia 2 mil anos de culpa. Recebemos uma cultura em que a mulher encara o sexo como uma coisa do mal ou como uma coisa errada. E quando você aciona o processo mental de culpa por algo que fez achando ser errado, você aciona imediatamente a reparação da culpa - o que se faz pelo sofrimento, pela penitência. (...) Em termos estatísticos, existem só quatro doenças que as mulheres têm mais que os homens: a depressão, os distúrbios de tireóide, a artrite reumatóide e o diabetes tipo 2 - todas doenças de metabolismo e ligadas ao humor, ao emocional. (...) Então, a palestra tem essa função de mobilizar sentimentos, mobilizar reflexões a partir de um referencial de saúde.

JC - Você diz que há cinco opressores na vida da mulher. Quais são eles?

Montgomery - O primeiro sistema opressor da mulher, na minha opinião, é o sistema patriarcal econômico. Um sistema em que as mães ainda educam suas filhas para buscar patrocinadores, ou seja, maridos ricos. Elas não descobriram ainda que o caminho para a felicidade da mulher é a autonomia, inclusive financeira. Só assim ela pode ter livre arbítrio para decidir o que quer ou não fazer, sem ter que agüentar as determinações do “orangotango” que está ao lado dela. O segundo opressor é a natureza. A mulher tem uma visão muito ingênua da natureza. Ela acha que a natureza é bela e maravilhosa. Vou dizer uma coisa: se no começo do século 20 nossa expectativa de vida era de 50 anos e no início do século 21 ela é de 75 anos e com essa qualidade de vida, é porque nós passamos os últimos 100 anos brigando contra a natureza. Basta ver o pescador que vive na beira do mar e precisa da natureza para sobreviver. Ele está quase cego aos 35 anos, aparenta ter 25 anos a mais do que tem, a mulher dele, que teve cinco filhos de parto vaginal sem uma assistência obstétrica adequada, agora tem o útero baixo, sofre de hemorróidas e a bexiga não segura mais a urina. Por quê? Porque a natureza não está preocupada com ela. Ela só está preocupada com que a espécie se desenvolva, e esse casal já fez isso com seus cinco filhos. Então, a natureza é superagressiva. Mas a mulher insiste em achar que a isoflavona (hormônio derivado da soja), porque é da natureza, é benigna, enquanto o hormônio do laboratório é maligno. A isoflavona é uma ótima opção, mas não significa que o hormônio sintético, que é bio-idêntico ao hormônio que o ovário fabrica, seja do mal. Achar que tudo o que vem da planta é natural é uma grande ingenuidade. A cocaína vem da planta, a maconha vem da planta, a nicotina vem da planta e são coisas malignas.

JC - E qual seria o terceiro opressor?

Montgomery - O terceiro opressor é a cultura machista que a mulher também absorve. Até os 35 anos, ela sofre um terrorismo moral imenso em que tem que ser bem comportada. Quando ela começa a perder o terrorismo moral, com 35-40 anos, ela cai na segunda forma de dominação, que é o terrorismo estético. Ou seja, o homem de 40 anos pode estar gordo, barrigudo, careca, horroroso - se ele tiver grana, poder ou estiver em ascendência social ele é o máximo. Pois a mulher pode ter grana, pode estar na ascendente social, pode ter poder, pode estar ótima, linda, que ela se sente para baixo, se sente feia, se sente em decadência.

JC - E o quarto opressor...

Montgomery - O quarto opressor chama-se igreja católica, que é a religião que mais perseguiu a mulher em toda a história da humanidade. Foi essa religião - que inclusive é a minha, por formação - que sacralizou o poder num deus masculino. O deus-pai é sagrado, autoritário, punitivo, castigador. O catolicismo sacralizou o poder num deus macho e satanizou a sexualidade na figura da mulher. Ou seja, o poder é do bem, mesmo que ele faça dez guerras e mate milhões de pessoas. E a sexualidade, que dá prazer, é do mal (...). Então, fica difícil para a mulher viver como a Maria de estudar, a Maria de menstruar, sangrar, a Maria de namorar, casar para sempre, num contexto em que Maria é sempre culpada de tudo o que acontece. E a mulher cresce nesse sistema.

JC - E o último?

Montgomery - O quinto opressor é a mídia. Porque a mídia vende uma imagem de juventude eterna, valoriza essa juventude eterna. Vende manuais de como se atingir o orgasmo, de como seduzir o marido, vende cirurgias plásticas maravilhosas e vende uma imagem da mulher que toda vez que você olha uma revista feminina, você - mulher - se acha feia. A mídia vende essa imagem da beleza milimetricamente perfeita (...) A beleza é diferente da estética. A mulher pode não ser esteticamente correta, mas ela pode ser bela. E o homem não tem essa visão estética da mulher. Ele busca a beleza, ele gosta muito mais da modelo com curvas acentuadas do que da magrela malhada. Eu dedico essa palestra às mulheres que escaparam de pelo menos três desses opressores. Porque dos cinco, ninguém escapa (risos).

JC - Então, qual é a dica de saúde que você deixa às mulheres?

Montgomery - A primeira dica importante que eu falo é: construa uma vida de autonomia afetiva e financeira. De forma relativa, é óbvio, mas de modo que você tenha chance de buscar seu médico, escolher seu método anticoncepcional, fazer sua reposição hormonal, fazer a prevenção do câncer e ser feliz com quem você quiser e sem culpas. Porque se você não tiver essa autonomia, você vai ser uma pessoa cheia de buracos emocionais e vai acabar se submetendo aos opressores. E corpo e mente andam juntos o tempo todo. Eu aprendi que, como médico, se eu indicar um anticoncepcional para estabilizar o ciclo da mulher e tirar dela a TPM (tensão pré-menstrual), a endometriose e as cólicas, de nada vai adiantar se ela continuar acreditando na avó, que diz que menstruar é natural.

JC - Você acha que não é?

Montgomery - Claro que não. A menstruação é um insucesso biológico. O ciclo da mulher tem uma única finalidade: a gravidez. Então, a mulher biologicamente correta é aquela que tem a primeira menstruação aos 14-15 anos, aos 16 está grávida, amamenta de um a dois anos, mal volta a ciclar e já engravida de novo. A média de gestações desta mulher é de 8 a 12 ao longo da vida e ela vai ter pouquíssimos ciclos menstruais, no máximo 40 a 100 menstruações na vida. Já a mulher de hoje, que foge da gravidez e tem no máximo dois filhos, vai menstruar 400 a 500 vezes na vida - dez vezes mais que a mulher do passado. Essa nova mulher, a mulher moderna, o corpo dela está fazendo uma adaptação a esses hormônios de ciclos tão freqüentes. Por isso surgiram a endometriose, as cólicas graves, TPM das piores possíveis, anemia por sangrar muito, os miomas e o câncer. Todo médico sabe que qualquer um desses anticoncepcionais modernos - pílula, implante, injeção ou anel vaginal - estabiliza a mulher e a protege. Mas nenhuma mulher vai conseguir aproveitar essas coisas boas do mundo moderno se tiver um monte de buracos emocionais que a impedem de desenvolver uma cultura mais clara em relação ao próprio corpo.

JC - E o que essas mulheres que já se submeteram aos opressores podem fazer para se livrar deles?

Montgomery - Refletir. Porque a doença vem para dar um sinal. Aquele seu câncer de mama é um código de comunicação. Há alguma coisa na sua vida que não foi ou não está legal. A mulher que teve o câncer, refletiu e, a partir dali, mudou suas atitudes em relação à vida, pode dizer que é mais feliz hoje em dia graças à doença, porque ela soube ouvir o que o corpo dizia. Agora, se a pessoa não ouvir, não ficar atenta ao corpo dela e aos sinais que o organismo dá, ela vai repetir a doença. Os sintomas e doenças são sempre uma forma de comunicação. Claro que não podemos negar a genética, mas suas emoções podem contribuir tanto para ajudar quanto para atrapalhar a genética. O que eu aprendi nesses quase 30 anos de profissão é que tudo o que se faz para a mulher em termos tecnológicos, científicos e farmacêuticos, coisas modernas que ajudam a mulher a ficar mais estável e mais poderosa do que ela já é e melhor consigo mesma, o mito é que dá câncer. (...) Você vê alguém falar mal dos medicamentos que promovem ereção masculina? Não, porque o homem pode ser poderoso, pode ter ereção até os 90 anos, que isso é uma coisa boa. Ele pode até morrer durante o orgasmo, vão dizer que morreu gloriosamente. A reposição hormonal feminina não. Ela deixa a mulher mais forte, com a pele bonita, a musculatura boa, os ossos bons, com desejo sexual e isso tudo não pode - dá câncer. Ou seja, a visão é machista. Pois se eu tenho 53 anos e não consigo enxergar direito, vou ao oftalmologista, faço um óculo e volto a enxergar bem. Se meu dente desgastou e eu quero mastigar até 90 anos, eu ponho um implante e tudo bem. Mas por que eu não posso repor os hormônios que os ovários não conseguem produzir mais? Porque é sexual. E se é sexual, se vai deixar a mulher mais poderosa, o mito diz que dá câncer. Então, é muito importante a mulher acordar e refletir. A religião é importante, a fé é importante e todas as outras coisas. Mas nada disso exclui a reflexão.

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