A convite do professor João Francisco Tidei de Lima participei de um seminário sobre a ditadura militar, ou que outro nome pretendam os que me honram com sua leitura. Na mesa, no anfiteatro da USC, estavam testemunhas vivas do que ocorreu em Bauru durante o movimento repressivo que se desencadeou a partir de abril de 1964. A cidade era muito pequena e a vizinhança entre perseguidos e perseguidores - alguns por sadismo e outros por dever - não deixavam margem a muitas crueldades. Como é que a autoridade ia prender o filho de fulano, amigo de tantos anos, só porque alguém o acusava de ser comunista? Com muita freqüência o “subversivo†recebia um aviso discreto para se mandar porque a coisa estava fei
a.
Surpreendeu saber que a moçada da USC tem enorme interesse pelo assunto, a ponto de participar com muito preparo dos debates. Alguém me perguntou sobre o papel do presidente Ernesto Geisel na redemocratização do País. Realmente a abertura começou com ele. Geisel era um autocrata autoritário, mas intelectualmente bem preparado. Conversava com quaisquer de seus ministros no mesmo nível e sobre os assuntos mais complexos. Sabia que a “revoluçãoâ€, como eles chamavam o movimento militar, estava se esgotando. As pressões da imprensa, da sociedade civil e dos países democráticos eram cada vez maiores. Enfrentou a linha dura. Jamais admitiu contestações à sua autoridade. Demitiu Silvio Frota, ministro do Exército, e o general Ednardo Ávila Melo, comandante da II Região Militar, depois das mortes de Manoel Fiel Filho e Wladmir Herzog no cárcere do DOI-C
odi.
Geisel foi o último presidente que tinha um projeto para o Brasil, o Brasil potência, um modelo que não podia funcionar por estar desligado da democracia e das reais necessidades do País, como a educação e o combate à pobreza. Aqui começa o grande equívoco do general. Começou a construir a imensa dívida que até hoje nos paralisa. Recebeu um País devendo US$ 8 bilhões e o entregou devendo cinco vezes mais. Era a época do Brasil Grande. Comprávamos usinas nucleares por atacado. Até hoje temos usinas encaixotadas. Fazíamos Itaipu, criamos projetos megalomaníacos que nos levariam à bomba atômica e ao submarino nuclear. Assistíamos à distensão “lenta, gradual e seguraâ€. Geisel desmanchava o porão porque não conseguia controlá-lo. Torturadores corrompidos acostumaram-se a viver sem estarem submetidos às regras, disciplina e hierarquia militares; tinham autonomia para pilhar casas de suspeitos de subversão, torturar e até matar, sem temer qualquer conseqüência. Muitos se tornaram marginais, envolveram-se com contrabando, contravenção ou grupos de extermínio. Alguns prosperaram, como o delegado Sérgio Fleury, que tinha até iate.
Infelizmente, no debate da USC fiquei devendo uma resposta mais ampla. Valho-me de Élio Gaspari no terceiro livro de sua extraordinária obra sobre o regime militar, “A ditadura derrotadaâ€, onde nos surpreende com a face desconhecida do general Geisel. Trata-se de um diálogo gravado entre ele e o general Dale Coutinho quando este lhe diz: “O negócio melhorou muito. Agora, melhorou, aqui entre nós, foi quando nós começamos a matar. Começamos a matarâ€. A frase tem um eco psicótico. “Começamos a matar†é repetido e repetido em várias ocasiões, como se fossem várias personalidades tendo que se assegurar do acerto de suas opções. Geisel aprovou. Depois dessa revelação, para mim deixou o purgatório para fazer companhia a outras figuras carimbadas do regime, como Médici, o brigadeiro Burnier e outros paisanos, a começar pelo delegado Fleury. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)