Agora que o tempo passou e os ânimos serenaram, podemos examinar com serenidade a seqüência em que ocorreram os fatos e revelar os bastidores da notícia. O presidente da República não achou que o New York Times foi objetivo. Reclamou repetidas vezes das “coisas feias” que o jornal disse dele e de sua família. No seu estilo emocional de ver os acontecimentos, foi como se a imprensa sentisse que tinha “o privilégio de provocar e prejudicar o líder e o presidente”.
Poucas vezes se viu o presidente mais enfurecido. Um dos jornalistas mais influentes do país estava com ele quando chegou a matéria que falava sobre a questão da bebida. Ele perdeu o controle. Para a imprensa, principalmente a norte-americana, era como se o presidente do país, vindo de onde viera, não pudesse agir de outra maneira. O mandatário ficou agitado, esbravejou, não deixou o jornalista falar, levantou-se da cadeira presidencial, circulou pela sala e despejou uma torrente de palavras que deixou atônito seu calado interlocutor. Na cabeça do chefe da Nação, esse tipo de crítica afetava a instituição presidencial e sua capacidade pessoal de unir o país e o tirar da grave crise que, tinha certeza, ele herdara do presidente anterior. As elites desse país, disse o presidente, não aceitam que eu seja um bom presidente, por ser o sucessor “do outro”, este sim festejado amplamente como um homem das elites, preparado para governar, habituado a viver fora do país, de boa família, sofisticado em seus gostos pessoais, mesmo quando sabidamente extravagantes.
Finalmente, a questão da reunião com os editores. Adianta ir a Nova York e encontrar-se com os editores do Times? Agora sabemos que um dos assessores mais íntimos e ilustrados do presidente, homem versado em questões internacionais, disse a ele: “Se eu fosse o senhor, eu ficaria com o pé atrás, presidente. O senhor sabe tanto como eu que tipo de turma eles são. É gente esperta, mas sem critério. Não deixe eles darem o tom”.
São esses os fatos, mas todos eles se referem não ao presidente brasileiro atual, mas ao presidente dos Estados Unidos, em plena evolução e apogeu da crise do Vietnã, entre 1964 e 1968. O primeiro episódio é citado no livro de Robert Dallek, Flawed Giant, Lyndon Johnson and his times, 1961-1973 (Oxford University Press, 1998, p.593). Sua queixa, datada de novembro de 1968, se referia ao tratamento que os jornais The New York Times e Washington Post deram e davam ao seu governo, então agonizante, durante a longa crise no Vietnã.
O segundo incidente, relatado pelo famoso editorialista do NewYork Times, James Reston, refere-se à forma como a imprensa americana comparava desfavoravelmente o presidente assassinado John Kennedy e seu sucessor. Mais exatamente, a explosão do presidente referia-se a uma matéria de revista, das muitas reportagens publicadas sobre o episódio, que descrevia acontecimentos das férias presidenciais no verão de 1964, em sua fazenda no Texas. Na ocasião, para deleite dos jornalistas, que não paravam de compará-lo negativamente com o charmoso JFK, Johnson apareceu diante das câmeras com um copo plástico de cerveja na mão, no volante de um de seus carros, dirigindo em alta velocidade. Para Johnson, a elite do país não o perdoava por ser sulista e sempre o diminuiria na comparação com o aristocrata Kennedy. O episódio é citado em O Reino e o Poder. Uma história do New York Times. de Gay Talese (Companhia das Letras, 2000, p.468).
O terceiro acontecimento é literalmente um diálogo ocorrido no início de abril de 1964, entre Lyndon Johnson e seu assessor, McGeorge Bundy, descoberto numa das muitas fitas em que o presidente guardou secretamente as conversas de seu governo, depois publicadas em Taking charge, the Johnson White House Tapes, 1963-64, de Michael Beschloss (Simon & Schuster, 1997, p.226). Refere-se à preocupação de Johnson com um encontro que teria logo em seguida com os editores do New York Times e à preocupação presidencial com as perguntas que o jornal, considerado pacifista, faria sobre a política de seu governo no Sudeste Asiático.
Moral da história: “Pois é, as aparências enganam”.
O autor, João Roberto Martins Filho, é doutor em ciências sociais e professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Federal de São Carlos.