“Caros amigos, amantes da pesca, da natureza, da paz, enfim, pescadores de todo o nosso imenso Brasil, cá estou eu de volta. O cenário maravilhoso, desta vez, tem lugar às margens do encantador rio Paranapanema, ou melhor, bem no meio daquele caudaloso curso d’água, que pode ser considerado um dos poucos, e talvez, o único rio não poluído de nosso Estado de São Paulo.
Naquela tarde de verão em Salto Grande, o astro rei foi convidado e compareceu esplendoroso! Trouxe consigo uma leve brisa que, alegremente, movimentava as pequenas nuvens presentes, fazendo com que fossem se ocultando, aos poucos, do infinito azul celeste. O piscoso ‘Panema’ corria suave e sussurrante, enquanto observávamos, eu e meu companheiro Sidney, a imagem da paisagem ribeirinha ser refletida com perfeição naquelas águas límpidas.
Estávamos instalados num barco, apoitado estrategicamente no canal do rio, pescando piaparas. A isca, um balde cheio de caramujos irrequietos, estava sobre um dos bancos da embarcação. O ‘filé’ do pobre caramujo, após ser retirado de sua ‘casa’, com o auxílio de um canivete, se oferecia ao anzol pacificamente. A pesca estava razoavelmente boa, pois no viveiro se debatiam sete piaparas que não resistiram em saborear a polpa daquele infortunado molusco.
Como a fome se fez presente, não hesitamos em saborear, sofregamente, alguns sanduíches feitos com aquela lingüiça apimentadíssima que chegava quase que a anestesiar a língua! Para refrescar o ardor impiedoso da ‘malagueta’, algumas latinhas de cerveja, bem geladas, foram convidadas a sair de um pequeno isopor para matar a nossa sede que aumentara ainda mais, por causa do calor da furiosa pimenta. Como foi agradável ouvir aquele ‘tssssssiiiiiii’ da lata se abrindo...
O que nos abrigava do sol forte, era um guarda-sol que oscilava muito, ora pelo vento, ora pelo balançar do barco. Numa das levantadas para fixar melhor o colorido guarda-sol, meu amigo ‘Sidão’ tropeçou no balde de caramujos. Pronto! Lá se foi a nossa isca conhecer o fundo do rio! Depois de alguns veementes ‘elogios’ ao meu companheiro e muita lamentação por termos ficado sem isca alguma, ocorreu-me um idéia inusitada.
- Escuta, Sidão, por que não usamos a lingüiça ardida como isca?
- É, sobraram alguns pedaços ainda...
Não deu outra! Fisgamos mais seis grandes piaparas! A alegria da pesca só não foi maior, porque cortava o nosso coração ver aqueles assustados peixes serem embarcados, todos com a boquinha bem aberta, o corpo curvado num vai e vem, como que tentando se abanar com o rabo! Seus olhinhos lacrimejantes pareciam implorar por socorro! Deu um dó que só vendo! Que pimenta brava! Devia estar ardendo até a alma das pobres piaparas (será que peixe tem alma?).
Juramos nunca mais pescar com aquela fogosa lingüiça. Pedimos mil desculpas ao Ibama, pois não era nossa intenção maltratar os peixes. Entretanto, quem quiser comprar a tal lingüiça, podemos dar o endereço do açougue em Bauru... Quem sabe se seu companheiro de pesca também tenha o azar de tropeçar no balde de caramujos, não é mesmo?”
Fernando Lucilha Jr. é aposentado, pescador, contador de histórias e “vegetariano” depois desta pescaria