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'Bauru precisa de uma marca forte'

Diego Molina
| Tempo de leitura: 11 min

De acordo com o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Domingos Malandrino, Bauru tem uma situação única entre as cidades de grande porte do Estado, pois possui todos os seus setores econômicos bem estruturados e desenvolvidos. No entanto, ele afirma que a cidade sofre atualmente de falta de auto-estima dos moradores e de falta de identificação para os empresários do resto do País.

“Nós precisamos de um slogan, uma marca que aumente nossa auto-estima. Nós somos o Coração de São Paulo, mas não pulsamos, nosso batimento é arrítmico. Precisamos aprender a valorizar o que temos aqui”, declara.

Malandrino aponta que a cidade conta com aproximadamente 21 mil empregos na indústria, 11 mil no comércio varejista, 7 mil na construção civil, 9 mil em serviços e 6 mil no agronegócio. “Porém não sabemos quem somos. Só vamos conseguir elevar nossa auto-estima e nosso amor pela cidade quando percebermos que precisamos lutar para conseguir o lugar que a cidade merece”, diz o secretário.

Nesta entrevista, ele comenta sobre os setores econômicos da cidade que merecem destaque por seu desenvolvimento - muitas vezes desconhecido pela população -, sobre os principais problemas e sobre as expectativas para a indústria, comércio e serviços em Bauru.

Jornal da Cidade - Por que Bauru não tem uma imagem forte, de cidade industrializada e com comércio estabelecido, divulgada para o resto do País?

Domingos Malandrino - A gente que tem participação em uma entidade como o Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), quando vai para encontros estaduais, percebe que o respeito e o reconhecimento por Bauru é muito maior fora da cidade do que por parte das pessoas que estão aqui dentro. O motivo, no meu ponto de vista, talvez sejam os últimos 20 anos, quando andamos meio que à deriva, principalmente pela falta de representatividade externa, com deputados federais e estaduais. Hoje, temos um deputado estadual brigando por Bauru, mas, se tivéssemos mais, seria melhor. Pouca gente faz conta de que em 1985 tínhamos 185 mil habitantes, e hoje temos mais de 350 mil. Dobramos de tamanho em 20 anos, e nesse período exatamente, perdemos a maior representatividade lá fora. Se você pegar as empresas bauruenses nesse período, elas vão muito bem, cresceram bastante. Eu posso citar algumas que há 20 anos eram pequenas e hoje são grandes, como Plasutil, Tiliform, Plajax, Tudor, são empresas de bauruenses que saíram do pequeno porte para o tamanho que têm hoje e que pouca gente divulga. As empresas acompanharam o desenvolvimento do município. Infelizmente, não veio mais gente de fora. Ninguém enxerga esse pólo intermodal que temos. É um erro estratégico. As pessoas vão para cidades como Campinas, Sorocaba e Piracicaba porque o lobby é mais forte. O que essas cidades têm de diferente? Tirando Campinas, que tem um parque tecnológico muito bem desenvolvido, assim como São Carlos, o restante, Bauru não deve nada a elas, pelo contrário. Se você pegar índices de qualidade de vida, Bauru está na frente.

JC - E por que percebemos que os investimentos não chegam até Bauru?

Malandrino - Os investimentos não vêm para cá porque quem não é visto não é lembrado. Se não tem quem briga por você lá fora, as coisas não vêm. Um exemplo: uma boa administração das entidades do sistema S de Bauru - Sesi, Senai, Sesc - e com representatividades fortes, como temos na Acib, Sincomércio, Ciesp, os recursos vêm para cá, tanto que a única cidade do Interior que tem dois CATs do Sesi é Bauru. O Senai está recebendo investimentos fortíssimos na área de gráfica, labortatórios de bateria e construção civil. O Sincomércio tem o Mesa São Paulo, que é exemplo nacional. As entidades continuam fortes e trabalhando firme em sua representatividade, mas na hora em que você precisa de algo mais... Um deputado estadual sozinho tem trazido várias coisas para Bauru. Porém, outra coisa é a imagem negativa que infelizmente ficou estampada para as pessoas que estão aqui. O bauruense só consegue enxergar que temos buracos nas ruas. Problemas nós temos, sim, e um monte, porque nos últimos 20 anos dobramos de tamanho e não nos preparamos, nem em termos do plano-diretor e estratégias de desenvolvimento.

JC – Na sua opinião, quais os setores de Bauru que atualmente merecem destaque?

Malandrino - Um grande problema de Bauru é não sabermos quem somos. Não conhecemos a cidade, todos os dados são estimados. Dentro do Ciesp, temos mais ou menos 550 indústrias. Mas, no DAE, um levantamento de ligações de água para empresas industriais revela 1.604. Temos no mínimo 1.100 empresas que não sabemos quem são ou o que fazem. Fica difícil de você criar ações para beneficiá-las. No entanto, temos empresas reconhecidas pelos bauruenses e muito mais lá fora. Fabricamos 40% de toda a bateria automotiva de reposição do Brasil. Somos responsáveis por 35% de todo o caderno escolar consumido no País, fabricados pela Tilibra. Somos referência na América Latina como empresa que fabrica utensílios domésticos de material plástico. A Plajax, no ramo de injeção plástica em componentes de bateria, praticamente abastece todo o mercado nacional. Com a Sukest e a Cadbury Adams, Bauru é referência na América Latina na fabricação de goma de mascar caramelada, sucos e gelatinas. Temos setores desconhecidos do povo, como a fábrica de máquinas de aramados (dobras de ferro para bancos de automóveis, construção civil, etc), que é de bauruenses e é referência na América Latina, a Mecal. Temos indústria que fabrica peças de bicicletas e que abastece praticamente todo o mercado nacional e inclusive exporta. O setor alimentício de Bauru tem arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviço (ICMS) maior do que nossa vizinha Marília, e nem por isso nós somos a capital nacional do alimento. Temos a Bunge, que é referência de extração de óleo de algodão, a Adams, a Sukest, a Mezzani, o Frigorífico Mondeli, que é o mais antigo em abate de bovinos do Brasil, e tantas outras, algumas que eu sequer conheço e não estou citando.

JC - E o que há no setor do comércio?

Malandrino - No comércio, temos o supermercado com maior venda por metro quadrado no Brasil, a rede Confiança, e ninguém divulga. O comércio é muito forte em empresas de Bauru, você consegue comprar de uma agulha a um caminhão.

JC - E o que falta para que Bauru e o resto do País saibam de tudo isso? Falta um “slogan” para a cidade, uma marca que a identifique?

Malandrino - Não tenha dúvida. Além de muito trabalho que precisa ser feito, do levantamento sócio-econômico que não vamos ter tempo de completar nesse governo. Eu sou secretário há 10 meses e não vou conseguir terminar esse trabalho. Estamos plantando essa semente e espero que o próximo secretário continue, mas em cima disso, precisamos desenvolver uma marca de Bauru, o que nós temos de mais forte. Será que o que é forte são as universidades, as cabeças pensantes que saem daqui? O foco é a qualidade que as universidades, escolas públicas e particulares fornecem para os bauruenses? Se você é um grande empresário e tem que escolher uma cidade para morar, você vem aqui porque seus filhos vão ter educação de qualidade. As universidades fazem muita pesquisa, mas ainda de forma introspectiva. Este é um trabalho que estamos desenvolvendo com a Unesp (Universidade Estadual Paulista), de extrapolar a pesquisa para o setor produtivo e agregar valor científico e tecnológico nas empresas. Você vai da indústria ao comércio, prestação de serviços, educação, então Bauru não é uma terra que tem uma única marca, isso até seria interessante divulgar. Se você vem com comércio ou serviço, pode desenvolver. No lado da pesquisa, tem espaço. No setor industrial, temos três distritos, onde temos problemas, sim, de infra-estrutura, mas é culpa de quem os criou. Mostrar e expor isso para quem está lá fora, é fundamental para que investimentos de fora venham, agregados aos que estão aqui e possam gerar empregos e tributos para o município.

JC - Quais seriam as principais dificuldades do setor industrial de Bauru?

Malandrino - No setor industrial, no meu ponto de vista, falta as universidades conseguirem um elo de ligação e transferir tecnologia para produtos e processos. É uma coisa que estamos correndo atrás, em parceria com a Faculdade de Engenharia da Unesp, para que isso aconteça o mais rápido possível. É uma coisa que faz falta hoje, apesar de já existir. Temos indústrias que já têm robótica em seu processo fabril. Por outro lado, há empresas que trabalham com suas prensas e cilindros sem os protetores exigidos por lei. Os extremos são distantes no parque fabril, 98% das empresas são de micro e pequeno porte e não têm condições de investir em tecnologia. A universidade vai ser importante nesse sentido, como acontece em São Carlos.

JC - E no comércio?

Malandrino - No meu entendimento, esse é um dos setores mais bem estruturados que temos no município, talvez até porque é uma atividade que depende do desenvolvimento local. O setor se interligou e conseguiu números e procedimentos que favoreceram seu desenvolvimento. O grande exemplo a ser seguido é a união desse setor. Todos os comerciantes são extremamente unidos através de suas entidades que os representam. Há muito o que fazer, como melhorar a iluminação da região central, a acessibilidade e mobilidade humana, mas são coisas até fáceis de serem feitas face ao tamanho do setor. Tem uma outra coisa, o comércio periférico de Bauru é extremamente forte. Na região do (Parque das) Camélias, do (Núcleo) Mary Dota e da Vila Independência, você vê que existem pólos descentralizados extremamente fortes, e o Centro continua forte também. Acredito que nunca o ser humano, com a dificuldade de recursos que tem, vai deixar de fazer a pesquisa de preços. A atratividade do Centro é grande porque, percorrendo quatro ou cinco ruas, você consegue fazer a cotação de preços em várias empresas que estão ali, próximas. Eu me preocupo mais com o comércio na Zona Sul, que está crescendo muito rapidamente de forma desordenada. Você tem uma loja de roupas em um quarteirão, e para chegar em outra similar, tem que andar sete ou oito quadras. Isso é um problema.

JC – Bauru também tem atrativos para se tornar um pólo de turismo?

Malandrino - Esse é um setor que cresce a galope em Bauru, e pouca gente percebe. Se você somar todos os eventos, desde as quermesses das igrejas até os encontros científicos, temos cerca de 2 mil eventos acontecendo em um ano, muitos locais ou regionais, empresas fazendo reuniões aqui, cursos que as pessoas vêm fazer. Existe um turismo técnico-científico e empresarial muito grande no município, tanto que os índices de ocupação dos hotéis de Bauru de segunda a quinta-feira beiram 100%. Redes de hotéis de fora já vislumbraram isso, tanto que temos grandes redes que já adquiriram áreas na beira das rodovias da cidade para lançar os seus empreendimentos, em face da grande circulação de pessoas que vêm para Bauru para participar de eventos. Esse é um setor muito forte e eu acho que os hotéis e restaurantes de Bauru devem começar a despertar para isso, ou gente de fora vai tomar espaço. Existe um plano em criar aqui um Convention Bureau, que é um órgão particular que vai buscar eventos e feiras lá fora. Mas ainda falta para nós um grande centro de convenções, com 15 ou 20 mil metros quadrados. O empresário que vier para cá e fizer isso, aliado a um parque de diversões, vai ter um sucesso muito grande devido ao ponto estratégico que Bauru é. Perceba quantos ônibus saem daqui ou dessa região do Estado, do Mato Grosso do Sul, indo para o Hopi Hari. Se você montar um parque em Bauru, as pessoas vão andar a metade da distância para se divertir.

JC - E quais tipos de incentivos Bauru oferece para as empresas que querem se instalar na cidade?

Malandrino - Bauru concede área para as empresas do ramo industrial, comercial atacadista e de serviços nos Distritos Industriais. É necessário providenciar documentos similiares ao que se exige para participar de uma concorrência pública, então a empresa tem de estar em ordem, não pode ter problemas contábeis nem trabalhistas. Concedemos a área por dois anos para que a empresa se instale. Nesse período, se ela mantiver a atividade proposta, vamos verificar e a área pode ser doada para a empresa. Encaminhamos para o Legislativo um projeto de lei sugerindo algumas alterações na forma de condução das concessões e doações, após o cumprimento das datas. Dois anos passam muito rápido e vemos que algumas empresas conseguiram áreas, construíram seus parques fabris e depois mudaram ou venderam, e o Município acaba perdendo receita e seu patrimônio público. Existem alguns incentivos tributários também que, junto com a Secretaria de Finanças, estamos planejando.

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