Conta-se que a expressão “negócio da China” surgiu no século 19 entre os contrabandistas ocidentais de ópio. Era uma atividade altamente lucrativa. Bastava subornar funcionários dos portos chineses e trocar a droga por seda e especiarias muito apreciadas e de amplo mercado na Europa. Um dia, os nacionalistas chineses decidiram dar um basta. Mataram os corruptos, expulsaram os corruptores europeus e acabaram com o regime feudal. Se o Lula foi ao Oriente para encontrar pechinchas e vender badulaques a bom preço, bateu na porta errada. Os chineses querem matéria-prima - minério de ferro, bauxita, soja, algodão - para poderem industrializá-las e revendê-las com valores agregados a preços competitivos, para o resto do mundo, inclusive o Brasil. Hoje, eles não compram mais quinquilharias. Vendem.
Cada um tem que cuidar dos seus interesses. Se os brasileiros querem vender o produto bruto em vez de transformá-lo em mercadorias mais acabadas e rentáveis, problema nosso. Ao que parece o “negócio da China” hoje está no Brasil. Comprar medicamentos e derivados de sangue humano industrializados, para o Ministério da Saúde, dá tanto dinheiro que até o datilógrafo da repartição tem mansão e iate. Negócio de R$ 2 bilhões pagos a maior e desviados para os bolsos da quadrilha, na qual se inclui homens de confiança do governo. Foi assim também com o bingo e com o caso do prefeito de Santo André. Se voltarmos um pouco mais no tempo vamos dar com o Maluf e seus milhões de dólares depositados na Suiça. Seu negócio da China foi a construção da avenida mais cara do mundo, chamada Águas Espraiadas, complementada por um túnel de fazer inveja (no preço) àquele sob o Canal da Mancha.
Lula qualificou sua viagem à China de “oportuna”. É preciso saber para que lado. “Oportuno” é um adjetivo derivado do substantivo “porto”. A oportunidade era, para os navegadores da Antigüidade, a ocasião propícia para o navio atracar. As embarcações eram frágeis, não tinham motores para dar ao piloto a governabilidade, podiam bater nas pedras e irem ao fundo (...)
De repente, a soja contratada com o Brasil ficou muito cara porque o preço caiu no mercado internacional. Era preciso melar o contrato. Os chineses devolveram os navios carregados de soja alegando contaminação provocada pelos grãos de semente que sobraram e foram acrescentados à carga. As sementes são impregnadas com inseticidas para evitar que sejam atacadas ao brotar. Realmente não servem para o consumo embora pouco representem na carga total. O “negócio da China”, o reaproveitamento das sementes, falhou. E dessa oportunidade se aproveitaram os nossos fregueses.
No Brasil, o termo “oportunista” designa fraqueza moral. Oportunista é o sujeito que vive sempre à procura de circunstâncias favoráveis para extrair algum proveito exclusivo, ou para obter alguma vantagem particular. Oportunista é o indivíduo que nunca rema contra a corrente e nunca escova a história a contrapelo, conforme dizia Marx. Sua tendência é a de jamais sustentar com firmeza uma opinião contrária à dos detentores do poder. E ainda locutores e comentaristas de futebol elogiam jogadores que têm senso de oportunidade, chamando-os de “oportunistas”. Então, oportunista passou a ser elogio.
Na política, este fenômno é mais constrangedor. Alguns anos atrás, se um político fosse chamado de oportunista, protestaria com veemência. Agora, eles sorriem, satisfeitos. E agradecem. Veja os acenos do Lula sinalizando que seu governo está aberto para a aproximação e o ingresso nele de políticos dos mais diversos partidos, inclusive conservadores manjados por já terem voejados em outros governos. Esses acenos exercem um efeito magnético poderoso, atraindo uma multidão de oportunistas, que se acotovelam à porta do Palácio do Planalto, à espera de uma... oportunidade. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)