Cultura

Projetos incentivam produção

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 6 min

A exemplo do Programa de Estímulo à Cultura, outras propostas desenvolvidas pela Secretaria Municipal de Cultura (SMC) buscam incentivar a produção teatral. É o caso do projeto “A Escola Vai ao Teatro” e a Mostra Santo da Casa, que colocam em foco a produção local e oferecem ao público a possibilidade de assisitir peças a preços populares.

O Santo da Casa, (que, entre outras atividades, oferece acompanhamento de professores especializados em teatro), conta com 20 companhias inscritas para a edição deste ano, que será realizada em agosto no Teatro Municipal.

Uma das companhias que participará do evento é o Curso Livre de Teatro Paulo Neves, que apresentará a peça “Cala a Boca Já Morreu”, de Luiz Alberto Abreu e que conta as dificuldades de um migrante em São Paulo. Coordenado pelo professor e diretor teatral Paulo Neves, o Curso Livre existe há três anos e é composto por 35 atores e atrizes.

Para Neves, o Santo da Casa representa uma forma de incentivo ao trabalho das companhias. “Com o projeto, temos à disposição um profissional de teatro especializado para atender o grupo”, aponta. Além do Curso Livre, Neves - que este ano completa 36 anos trabalhando como diretor teatral - dirige, desde 1972, a Cena Aberta, uma das companhias mais antigas da cidade e que possui atualmente 12 integrantes.

“O grupo tinha o nome de Momento, mas como forma de homenagear minha mãe (Celina Lourdes Alves Neves), que tinha uma companhia com esse nome, ele passou a se chamar Cena Aberta”, explica o diretor. Atualmente, ele também prepara a produção de “O Cordão Umbilical’, de Mário Prata”, com estréia prevista para o mês de junho.

Dirigido por Vânia Fonseca, o grupo teatral Enquanto Ela Não Vem, formado por reeducandos do Instituto Penal Agrícola (IPA), também participará da Mostra Santo da Casa, com a peça “A Revolta do Padroeiro”.

A montagem, que fala da história de um santo, também será apresentada na próxima quinta-feira, no Espaço Arena do Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”. A apresentação marcará a estréia do projeto “Teatro É Bom e Barato”. Idealizada por Vânia, em parceria com a SMC, a proposta visa democratizar o acesso ao teatro, já que o ingresso custará R$ 1,00.

“A idéia é levar público ao teatro e também divulgar o grupo”, diz a diretora. Existente há três anos, o Enquanto Ela Não Vem - que já produziu diversos espetáculos adultos e infantis, além de coreografias de dança - tem como objetivo resgatar a auto-estima e promover reflexões de valores aos reeducandos.

Equipamentos

O crescente desenvolvimento do trabalho realizado pelos atores e atrizes também está relacionado à evolução dos recursos e técnicas de produção, aponta o secretário municipal de Cultura, Sérgio Losnak. “A possibilidade de se ter um espaço adequado, como o próprio teatro, proporciona um aprimoramento dos grupos, que dessa forma, passaram a se especializar em técnicas de concepção de luz, efeitos de cenografia e cenotécnica”, diz.

Dora Girelli, que é socióloga e diretora teatral, concorda com Losnak e ressalta que com a inauguração do Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves”, em 2000, a comunidade bauruense passou a assistir espetáculos com mais freqüência. “Sem um espaço, o público não poderia estar ‘viciado’ em teatro. Agora, gradativamente, estamos percebendo que os grupos estão conseguindo levar pessoas ao teatro. Isso é muito positivo para Bauru”, destaca.

Além do Teatro Municipal, a cidade possui outros palcos que recebem apresentações de grupos locais e grandes produções nacionais, como o Teatro Veritas da Universidade do Sagrado Coração (USC), o Teatro Universitário “Edson Celulari” do Preve Objetivo, e o Teatro “Bela Vista” do colégio São Francisco de Assis. O Serviço Social do Comércio (Sesc), eventualmente, também recebe peças teatrais em seu ginásio. Semanalmente, sempre aos domingos, o mesmo espaço do clube serve de palco para apresentações de espetáculos infantis por grupos de Bauru e outras cidades.

Desde 1986, Dora coordena o Grupo Educativo Abertura, formado por 40 integrantes entre 13 e 32 anos de idade. Os atores e atrizes são voluntários. “Todos podem participar e não existe teste para entrar”, explica a diretora. “A proposta do grupo é diferente, não utilizamos cenários caros e preferimos trabalhar com mais com as palavras”, acrescenta.

De acordo com ela, a companhia busca levar mensagens educativas e culturais à platéia, como por exemplo na montagem “Uma Pensão Muito Louca”, que fala do problema de drogas e prostituição; e na recente peça “Vida de Peão”, abordando os sentimentos do peão boiadeiro, profissão praticamente extinta no Brasil.

A evolução do mercado de trabalho é outro fator visto como positivo para o desenvolvimento da área teatral. “Há uns quatro anos, nós percebemos um aumento de grupos de teatro na cidade. Antes, haviam pessoas na que tinham outra atividade, e esporadicamente faziam teatro, hoje temos muitos artistas, que embora não tenham as melhores condições de trabalho, encaram a atividade artística como uma profissão”, observa Losnak.

É o caso do ator e diretor teatral Paulo Vinícius Alves, que apesar de acumular 15 anos de experiência na área, estava há cinco afastado dos palcos. Mais otimista em relação ao cenário cultural, ele resolveu voltar a produzir espetáculos este ano. Em parceria com a também atriz Susan Lopes, inaugurou há cinco meses o Grupo ISTO - Teatro Experimental.

Como o próprio nome diz, a companhia segue uma proposta alternativa, experimentando linguagens teatrais não-convencionais. A mais nova invenção do grupo é o projeto “Clarice”. “Nossa idéia é fugir do realismo simples do teatro, então resolvemos trabalhar com o expressionismo. O projeto será dividido em uma palestra e um espetáculo baseado na obra “Água Viva”, de Clarice Lispector”, adianta Alves.

Dificuldades

Apesar do crescente aprimoramento, os grupos teatrais ainda esbarram em um problema: a dificuldade em conseguir verba suficiente para a produção dos espetáculos. A maioria dos grupos reclamam que embora existam algumas empresas patrocinadoras das peças, elas são a minoria na cidade.

“Dificilmente as pessoas patrocinam e muitas vezes temos que montar os espetáculos com dinheiro próprio. Tenho recebido apoio do CCI, da RG Comunicação e da SMC, mas a maioria ainda não acredita no nosso trabalho. Está na hora de se acreditar não apenas nos grupos de São Paulo, mas em todos os grupos de Bauru”, reclama Paulo Neves.

Márcio Pimentel concorda com Neves. “As empresas locais não têm o costume de promover esse incentivo, como em outras cidades, como São Paulo”, aponta. “Apesar de existirem exceções, como o Grupo Prata, que patrocinou ‘A Nutricomédia’, mas não há muito interesse do empresariado bauruense em investir em cultura”, lembra Carlos Batista.

Paulo Vinícius Alves compartilha da mesma opinião de seus colegas de profissão. “Uma das grandes dificuldades que senti depois de voltar a produzir peças é em relação ao patrocínio. Realizamos um trabalho sério e as pessoas poderiam nos ajudar mais”, cobra. “Os grupos precisam de apoio. No caso do Enquanto Ela Não Vem, necessitamos até de combustível para transportar os atores, e corro até o risco de precisar fechar o grupo por falta de verba”, lamenta Vânia Fonseca.

Para Sérgio Losnak, a dificuldade em conseguir recursos para a produção teatral está ligada a um problema cultural da sociedade. “De uma forma geral, a situação é difícil não só em Bauru, mas também no Rio e em São Paulo. O que acontece é que é mais fácil conseguir patrocínio quando o artista é famoso, por exemplo, porque a população ainda procura ver no teatro uma reprodução da televisão”, diz. “A questão da sobrevivência do artista através da arte é algo que vem de muito tempo e não ocorre só o Brasil, mas em diversos países”, observa.

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