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Jardins da infância


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Numa esquina da Getúlio Vargas, dois meninos pedem esmola - fato tão comum e corriqueiro que não chega a ser notícia. Nem manchete de primeira página. Só quem passa na rua ou pára no farol fica sabendo. Uns fecham o vidro e ignoram, outros abrem e dão umas moedinhas. Quem resiste ao olhar pedinte das crianças?

Todos os dias, em alguma esquina da cidade, meninos pedem esmola, vendem coisas, guardam carros. E assim, por descuido de todos, acabam fazendo parte da paisagem. E aquilo que nunca deveria acontecer parece normal e quase ninguém se importa.

Os da esquina da Getúlio não têm mais que 6 anos. Estão descalços, desabrigados... Lá fora está frio e chove uma garoa fina. Mas este é o menor dos riscos que eles correm. Há outros mais sérios e invisíveis para nós. A rua é cruel, mas tem seus atrativos para a criança pobre. Hoje, ela traz dinheiro e uma infantil sensação de liberdade. Mas amanhã será a violência, as drogas, a exploração sexual, tantos horrores que nem imaginamos de dentro dos nossos carros quentinhos, das nossas casas confortáveis.

De alguma forma, eles sabem que algo está errado. De repente, os meninos avistam um carro de polícia e mais que depressa, desaparecem. São tão pequenos que cabem os dois, bem juntinhos, embaixo de uma pequena moita plantada em uma jardineira. Aquilo parecia uma visão impossível. Como cabem ali? Mas logo veio a resposta: eles cabem na jardineira porque são pequenos mesmo.

E se fosse o contrário? Se plantas arrancadas da jardineira estivessem jogadas na calçada? Alguém veria? E quem percebesse? Jogaria migalhas de terra ou gotas de água para salvar a planta? E ainda assim, de que resolveria? As raízes, fora da terra, não podem sobreviver. Crianças sem raízes também não.

Então, pensei como seria bom viver em um lugar onde crianças pobres fossem como plantas em um jardim bem cuidado. Um jardim comunitário em que cada um fizesse a sua parte: adubar, plantar, regar, tirar as pragas e esperar as flores. Foi um sonho momentâneo. O farol abriu, os carros passaram, o meu também. Mas a imagem das crianças plantadas na jardineira não sai da minha cabeça.

Uma imagem tão forte que não quero guardar só para mim. Vou dividi-la com vocês, para lembrar que rua não é lugar de criança. E jardineiras menos ainda.

A autora, Maria Emilia B. Fabris, é jornalista, publicitária e representante do Sindicato dos Jornalistas no GEA - Grupo Empresarial de Apoio à Criança e ao Adolescente de Bauru.

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