Expressão carregada de aderência social e psicológica na cultura nacional. Quase todo mundo andou atrás da moita. Coisa antiga, muito antiga, dirão alguns. Coisa do Interior, da zona rural, dirão outros. Nem tanto. A moita foi consagrada na literatura por Carlos Heitor Cony, com a genial sensualidade do seu conto: “Da arte de caçar rolinhas”. Aluísio Azevedo falava de moitas e de quintais em cativantes textos que coloriam a periferia nascente do mundo urbano carioca. Quem não se lembra do refrão da Maria Chiquinha que foi fazer no mato qualquer coisa... (...)
Estas referências não inspiraram esta crônica. Bill Clinton inspirou. Democrata duas vezes presidente dos USA. Em palestra, na inauguração do novo Instituto Fernando Henrique Cardoso, declarou literalmente: “Imaginando que estivesse no governo na época do atentado, teria feito diferente do que me esconder atrás das moitas”. Alusão ao comportamento de presidente Bush que sumiu para lugar secreto nos dois ou três dias depois dos atentados.
Fernando Henrique gosta de Bill Clinton. Lula da Silva adora George W. Bush. Declarações de admiração são recíprocas. Bush desencadeou a carnificina no Afeganistão e no Iraque. Bill Clinton não quer ficar atrás. Dá uma de machão: “Teria entrado com mais força no Afeganistão. Combater a Al-Qaeda e Bin Laden era mais importante que a invasão do Iraque”.
Bill Clinton é do Arkansas, terra de grandes tradições. Para quem não se lembra, o primeiro grande levante de negros contra a discriminação racial, foi na Capital Little Rock, nos anos 50. O esporte preferido de brancos era pendurar negros pelo pescoço nas árvores. A coisa mudou. Bill Clinton é exemplar liberal democrata. Apóia John Kerry da civilizada Nova Inglaterra para a presidência contra Bush.
George W. Bush, acusado de se esconder na moita, ama estar rodeado de conservadores representantes das multinacionais do petróleo e do complexo industrial. Gosta também de uns goles de destilados e de igrejas fundamentalistas, com toda aquela imensa gritaria. Em um final de semana, levou tombos de bicicleta e esfolou o rosto. Havia caído certa madrugada de poltrona na Casa Branca. Clinton praticava outros esportes naquelas poltronas. Bush não deve ter gostado da brincadeira de Bill. Bush vem do Texas. Lá, atualmente, o esporte principal é caçar mexicanos na fronteira. (...)
A polêmica entre democratas liberais e republicanos conservadores lembrou “Dança com lobos”. Personagem metafórico, usado e abusado, para expressar a violência dos civilizados contra povos por todo mundo. Colonizadores massacraram e dominaram muitas culturas. Massacres tanto nas pradarias do Oeste americano quanto nas florestas do Brasil. Chegou a vez do mundo islâmico. A cavalaria massacrou sioux. Bandeirantes massacraram e escravizaram nossos povos indígenas. Tanques e mísseis devastam o Iraque. O “Dança com lobos” renegou velhos amigos: um bando de bandidos civilizados. Conheceu novos amigos. Os sioux selvagens revelaram novas possibilidades de vida e de solidariedade, novas formas sofisticadas de viver e sentir o mundo. Tragédia final. Os civilizados com superioridade técnica massacram os selvagens com sua cultura rica e original. Triste história sem tréguas... Liberais ou conservadores americanos não conseguem se esconder atrás da moita...
O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas da USP.