A Secretaria Municipal de Saúde confirmou ontem mais dois casos de leishmaniose visceral humana em Bauru. Com isso, sobe para sete o número de casos em humanos neste ano no município e 21 desde setembro de 2003, quando a doença foi registrada pela primeira vez na cidade. Em 2004, Bauru já ocupa o segundo lugar no ranking da leishmaniose no Estado de São Paulo, só atrás de Araçatuba, cidade que há anos vive epidemia da doença.
Os casos confirmados ontem são de duas crianças - uma de 12 anos, residente na Vila Industrial, e outra de 11 anos, moradora no Núcleo Edson Francisco da Silva (Bauru 16) -, informou o Departamento de Saúde Coletiva (DSC), órgão da Secretaria Municipal de Saúde.
Elas moram em bairros da zona oeste, principal foco da doença neste ano - dos sete registros três foram no Bauru 16, dois na Vila Dutra, um na Vila Industrial e um no Jardim Manchester. O surgimento de novos casos de leishmaniose preocupa, mas Maria Helena Abreu, diretora do DSC, ressalta que esses pacientes podem ter contraído a doença há bastante tempo - o período de incubação é de dez dias a dois anos.
Ela acredita também que, agora, os médicos estão mais atentos para a doença na hora de fazer o diagnóstico. “Quando o médico depara-se com um paciente com quadro típico de leucemia, o que foi o caso da maioria das crianças com leishmaniose em Bauru, ele já investiga se não é leishmaniose. Isso aumenta o diagnóstico para a doença”, diz.
Devido à semelhança dos sintomas, Abreu relata que um dos pacientes com leishmaniose em Bauru foi tratado por meses como portador de leucemia. Para esclarecer sobre a doença, o DSC vem alertando os médicos. “Na semana passada demos treinamento para cerca de 30 médicos dos prontos-socorros para que eles suspeitam de leishmaniose em qualquer caso de febre, perda de peso e apatia”, conta.
Neste ano já foram registrados 29 casos de leishmaniose no Estado de São Paulo. Os números do Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado mostram uma redução de casos em municípios que tradicionalmente registram a doença, como Araçatuba, Andradina e Birigüi, e aumento em outros, o que é o caso de Bauru.
O médico Fernando Monti, que está acompanhando as duas crianças que são as novas pacientes da doença em Bauru, ressalta que a leishmaniose na cidade está em uma curva ascendente. Ele pondera que o período de incubação da doença é longo e isso dificulta fazer projeções da epidemia, mas acredita que surgirão muitos outros casos de leishmaniose em Bauru.
Para Monti, a região de risco da doença, a zona oeste da cidade, está se expandindo, o que exige ações do poder público e dos moradores. “Já tivemos casos de cães com leishmaniose na Bela Vista. Isso mostra que há condição para surgimento de casos em humanos em novos bairros”, afirma.
A tática de combate à doença não mudará, segundo a diretora do DSC. As equipes da saúde, num total de cerca de 120 pessoas, fazem a busca ativa de novos suspeitos e trabalho ambiental em um raio de 200 metros em torno dos casos de leishmaniose em humanos confirmados e coletam sangue de cães sob a suspeita da doença.
A única novidade será uma remodelação das equipes que fazem a coleta de sangue dos cães, que deve ser feita a partir de segunda-feira. O objetivo, explica Abreu, é aumentar o número de equipes. Já foram registrados mais de 200 casos da doença em cães neste ano.
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Ações de combate
Apesar das ações divulgadas pelo DSC, há moradores da zona oeste que afirmam não ter recebido a visita das equipes de saúde. “Sei que passaram no bairro, mas aqui em casa não vieram”, conta Lúcia Helena dos Santos, moradora da Vila Nova Esperança.
O aposentado José Carlos de Almeida, morador no Bauru 16, relata que acionou o DSC porque suspeitou que um cachorro de rua estava com leishmaniose, mas o animal sumiu antes da chegada dos técnicos.
Já Ana Cristina Fogaça, moradora no Bauru 16, diz que uma equipe do combate à leishmaniose esteve em seu bairro. “Aqui eles passaram explicando que a gente tem que tirar lixo dos quintais e terrenos baldios”, atesta.
A leishmaniose é transmitida a cães e a humanos através da picada do mosquito palha infectado. A doença atinge preferencialmente o fígado, o baço, os gânglios e a medula óssea, provoca um processo infeccioso, além de anemia, que pode reduzir as chances de vida do paciente.
Como o mosquito palha procria-se em material orgânico em decomposição, como folhas, a melhor arma contra a doença é a limpeza dos quintais e terrenos baldios, lembra a diretora do DSC, Maria Helena Abreu. “Infelizmente, principalmente na periferia, ainda há muito lixo e cachorros na rua, as condições ideais para a doença”, diz.