Balada, música, gente bonita e bem vestida, bebida alcoólica, maconha, cocaína e ecstasy. Um cardápio farto encontrado pelos jovens bauruenses que saem de casa para se divertir em casas noturnas ou festas da cidade. A maioria pode até saber dos perigos no consumo de álcool e drogas, mas ainda assim não é nada difícil encontrar meninas bêbadas ou garotos “viajando” depois de fumar um baseado.
Por notar que é cada vez maior o número de pessoas envolvidas com drogas nas baladas que um grupo de jovens se uniu e lançou na semana passada a campanha “Antenado Contra as Drogas – A melhor ação é a informação”. Na opinião do coordenador da campanha, o estudante de jornalismo Leandro Alves Ribeiro, 23 anos, o jovem abusa do álcool e das drogas porque ainda é carente de informação. “O jovem não tem quem fale diretamente a ele. As campanhas do Ministério da Saúde não dizem nada aos jovens, porque não é nossa linguagem”, aponta.
Ribeiro é editor-chefe do jornal online Antenado, do site www.festaembauru.com.br. Ele comenta que a iniciativa de criar a campanha surgiu das pessoas que produzem a página, que percebiam o uso indiscriminado e abusivo de drogas por colegas e outros jovens que eles encontravam quando faziam a cobertura das festas de Bauru. Nesta entrevista, Ribeiro fala sobre a legalização de drogas, engajamento dos jovens e sobre as ações que o grupo pretende desenvolver neste ano.
Jornal da Cidade - Como surgiu a idéia da campanha?
Leandro Alves Ribeiro - A campanha nasceu baseada na nossa experiência. Como eu faço a apresentação do projeto Vitória Rock, constatei um problema que existe durante os eventos e também em outros locais. Nós temos o site e percorremos a noite bauruense fazendo entrevistas para nosso jornal eletrônico. Percebemos que há consumo de drogas, prostituição, acidentes de trânsito causados pelo pessoal que estava nas casas noturnas e shows. A gente acaba reconhecendo as pessoas envolvidas com isso, e todos estes problemas são decorrentes do tráfico e do consumo de drogas. Num levantamento que a gente fez para o site, 90% das ocorrências policiais registradas como homicídios ou acidentes estão ligadas ou condicionadas ao uso de entorpecente, sejam lícitos ou ilícitos. A partir dos dados, conversei com o pessoal do site e decidimos que precisávamos fazer alguma coisa. Não podíamos ficar parados. Particularmente, tenho uma história de um tio que conviveu comigo, que destruiu a vida dele usando drogas. Assim como muitas pessoas, eu também passei pelo processo de perder um ente querido ao longo do tempo para as drogas. Também tinha amigos que morreram em acidentes de trânsito depois de beber. Eu tinha o desejo de fazer uma campanha com esse tema desde a época que eu era representante da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Bauru (Umesb). Infelizmente, entidades estudantis preferem não levantar essa discussão, até porque tem muitas pessoas lá dentro que são a favor da legalização. É até uma crítica construtiva que eu tenho a fazer: essas entidades deveriam se preocupar mais com o aspecto da imagem que passam, já que os membros são pessoas públicas, antes de fazer comentários ou esse tipo de campanha. Tenho uma frustração com relação a isso porque eu fui voz quase solitária na tentativa de fazer uma campanha contra as drogas.
JC - E por que a campanha tem esse tema, “a melhor ação é a informação”?
Ribeiro - A campanha tem esse nome justamente porque ela é feita por estudantes de jornalismo. Não podemos assumir um compromisso com a sociedade e as entidades e entrar numa área que não é a nossa. As palestras que foram programadas para o lançamento, sim, são com médicos e especialistas. Nosso objetivo é deixar claro que essa iniciativa é fazer a campanha e informar sobre o tema. Em parceria com outros veículos, como o Jornal da Cidade e outros que abraçaram a campanha conosco, queremos ampliar o nosso alcance. A gente acredita que não adianta repetir outras campanhas que possuem erros como a “Diga Não às Drogas”, que era aquela da mão. Ela basicamente dizia para os pais conversarem com seus filhos e manterem um diálogo franco. Se o problema das drogas fosse somente o relacionamento de pais e filhos, bastava formar mais psicólogos e a sociedade estaria livre desta situação. Na verdade, temos a consciência de que o problema das drogas é muito mais complexo e amplo, passa desde o usuário, de quem compra e vende, até o traficante e coisas muito óbvias, que a sociedade insiste em não enxergar. Por exemplo, sabemos que a droga não entra no País pelos traficantes dos morros do Rio de Janeiro, mas por grandes empresários e políticos corruptos, que têm condições de comprar 50 toneladas de cocaína. Eles são aliados e direcionados ao lado do mal, porque não estão cumprindo seu devido papel na sociedade. Não temos provas contra essas empresas, mas todos sabem que o tráfico é uma questão mundial e que relaciona todos esses elementos. A campanha não tem a intenção de acabar com o uso de drogas. Quem somos nós para falar uma coisa dessas? Mesmo que reuníssemos toda a sociedade de Bauru, não conseguiríamos acabar com esse problema. Então estamos partindo para a área da humanidade, do relacionamento. Não temos o poder de impedir que o traficante venda ou que as drogas entrem no País, mas temos o poder de informar, conscientizar, usar a imagem de artistas bauruenses que gravaram o jingle da campanha para mostrar à sociedade que estamos nessa luta para informar.
JC - Quais são as próximas ações da campanha?
Ribeiro - A campanha vai ter duração de um ano e nesse período vamos ter várias atividades. Um dos aspectos é arrecadar alimentos e verbas para as entidades que fazem tratamento de dependentes químicos. Outra coisa são as palestras, que já estamos começando a agendar e que serão no mesmo formato do que fizemos no Teatro Municipal, com autoridades falando sobre o tema durante o dia e shows musicais à noite. Acreditamos que a cultura e a educação juntas são a melhor forma de combater as drogas. A partir de agosto, vamos passar em todas as escolas e universidades para tentar agendar os dias de combate às drogas. Uma das frentes mais importantes são os shows que vamos promover com artistas bauruenses e até de fora, para divulgar a campanha. Queremos conseguir também a parceria de empresas e profissionais que possam ajudar as entidades. Eles mantêm o trabalho de recuperação e precisam de uma estrutura para receber os dependentes, como uma TV, um videocassete. O Esquadrão da Vida, por exemplo, tem uma área de musculação que está totalmente defasada, então queremos correr atrás para ajudá-los nisso. Queremos fazer contato com empresários de Bauru e da região para ajudar a estruturar as entidades.
JC - Você citou alguns movimentos de jovens que têm membros que defendem a descriminalização ou a legalização das drogas. Qual é a sua opinião sobre isso?
Ribeiro - A gente já tem drogas legalizadas, o álcool e o cigarro. Há números incontestáveis de que o álcool e o cigarro matam diariamente. Mas as pessoas continuam dizendo que as drogas lícitas não fazem mal, que pode usar de vez em quando, tomar uma dose aqui e outra lá, mas os grandes acidentes de trânsito têm envolvimento de pessoas que utilizaram drogas. As estatísticas das polícias Militar e Civil estão aí para provar. Partindo dessa premissa, de que essas drogas já causam grande prejuízo para a sociedade, imagine se fosse legalizada a maconha, a cocaína e o crack. É uma questão incabível, pois as drogas fazem mal. Maconha é droga, apesar de muitas pessoas tentarem defender o contrário.
JC - Algumas pessoas que defendem essa idéia argumentam que a legalização poderia reduzir os problemas que surgem com o tráfico, como a própria criminalidade. Você não concorda com isso?
Ribeiro - Isso não condiz com a realidade, porque o problema que temos na sociedade brasileira com as drogas não seria resolvido com a simples legalização da maconha ou de outras substâncias, justamente porque há outras questões embutidas e que falam mais alto. Muitos traficantes entram no mundo do tráfico e nem são usuários, pois eles não têm emprego, não têm moradia nem condições sociais dignas. O Brasil é um país que vive no caos. O nosso nível de desigualdade social e a distribuição de renda são incrivelmente absurdos. A riqueza está acumulada na mão de poucas pessoas e o resto passa fome. Num país com esses moldes, não cabe a legalização até porque o Congresso Nacional, o Senado e o Poder Executivo têm outras coisas mais importantes a serem discutidas, como o programa Fome Zero, a reforma da Previdência Social, questões de saúde, programas de emprego e moradia. Isso sim resolveria o problema das drogas, porque a partir do momento em que a pessoa trabalha e tem dignidade, não vai procurar as drogas. Eu tenho uma crítica a artistas e bandas que defendem a legalização das drogas, como o Frejat, que no show em Bauru (realizado no último mês) cantou uma música do Bezerra da Silva, “Malandragem, dá um tempo”, falando “Legalize já!”. Esses artistas vêm de uma época, dos anos 80, em que as drogas estavam no pico, na moda. Eles têm uma imagem e não a usam para fazer o bem. Existe uma irresponsabilidade desses artistas em sair falando o que lhes vêm à cabeça, sem a mínima responsabilidade. A campanha pretende trabalhar com artistas de cara limpa. Queremos trazer um grande show para a cidade e estamos procurando artistas como Sandy & Junior, KLB e Felipe Dylon, que são jovens responsáveis e de cara limpa. É isso que queremos mostrar na campanha.
JC - Você e os outros integrantes do site percorrem as baladas e festas de Bauru. Como é o uso de drogas na noite da cidade?
Ribeiro - É uma situação triste, porque há consumo de drogas em todas as festas. Não é só em eventos abertos, como o Vitória Rock. É uma questão proporcional: quanto mais gente, mais consumo.
JC - Essa é uma situação independente do nível social dos jovens nas festas?
Ribeiro - Quanto mais alta a classe, quanto mais ricos os jovens, maior o consumo. É isso que observamos, e as pessoas não fazem questão de consumir as drogas escondidas. Elas estão na pista dançando e consumindo, ou ficam num canto fumando maconha. Isso gera alguns problemas, pois o cara usa drogas, bebe, fuma, transa sem proteção... Também tem muita prostituição rolando em casas noturnas e nem os proprietários ficam sabendo. As pessoas misturam todos os canais. Antigamente, os dependentes de drogas freqüentavam determinados locais, mas não existe mais isso. Eu gostaria de frisar isso, até para as pessoas deixarem de ser hipócritas. Não adianta esconder que o meu filho usa drogas porque ele vai ser desmoralizado perante à sociedade. A gente precisa abrir o olho e começar a dar exemplo.
JC - O ponto principal da campanha é a informação. Como você explica que jovens de classe alta, que supostamente freqüentaram bons colégios e tiveram uma boa formação, seriam os maiores usuários de drogas?
Ribeiro - Exatamente porque a sociedade insiste em tapar o sol com a peneira, em não assumir que um dono de escola, um empresário ou um advogado tem um filho que usa drogas. Eu assumo que já bebi, mas nunca usei drogas na minha vida. Eu estudei em colégio público na periferia e em escolas particulares famosas da cidade. Todos sabem que as pessoas usam drogas e os professores não falam sobre isso. Ainda falta informação sobre as drogas para os jovens. Se o seu filho usa droga, temos que conversar abertamente com ele. É uma situação delicada, mas que é culpa da hipocrisia da sociedade e que está custando muito caro. A gente fica em casa, assistindo ao “Jornal Nacional”, achando que os muros e as grades nos protegem de quase tudo, mas na verdade não estamos protegidos do nosso próprio mal, que é a indiferença, insistir que não há problemas quando há, sim. Por isso nossa luta é informar e falar sobre isso.
JC - Na sua opinião, o jovem de hoje é engajado?
Ribeiro - O Humberto Gessinger (vocalista da banda Engenheiros do Hawaii) tem uma frase que diz que a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes. Hoje, eu vejo que a juventude é mais esperta e mais ligada em tudo. Os jovens hoje são mais preocupados com sua saúde, bebem menos do que nos anos 70 e 80, por exemplo, e são mais informados. A juventude tem uma outra cara. O jovem está amadurecendo mais rápido, até porque a sociedade exige isso dele. A campanha tem de identificar isso, criar uma identidade com o jovem, porque só a partir do momento em que o jovem se identifica com uma pessoa é que ele vai ouvi-la.
JC - E uma Secretaria da Juventude deveria ter jovens à sua frente?
Ribeiro - Exatamente. Jovens que estão cursando faculdade, que estão trabalhando em atividades específicas. Poderia haver uma Comissão da Juventude, já que não há uma secretaria, para ter discussões como essa que a nossa campanha está se propondo a fazer. Ir até as faculdades e chamar alunos de serviço social, de psicologia e outros cursos para conversar e encontrar pessoas interessadas em participar de atividades e ações voltadas para o jovem. Uma coisa do governo Lula que merece aplausos é o fato do ministro da Cultura ser um músico. Ele tem a sensibilidade para conduzir o ministério porque sabe dos problemas dos artistas.
• Serviço
O site da campanha é www.festaembauru.com.br/antenadocontraasdrogas. O grupo também pode ser contatado pelo telefone (14) 9113-2753, para agendamento de palestras e atividades.