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O mercado das cotas


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Com a reserva de vagas nas universidades públicas para negros, pardos, índios e pobres, o Brasil cria o profissional das cotas.

A idéia que permeia todos os setores sociais do país de vincular emprego à educação, que se estabelece como uma ligação de causa e efeito, não considera inúmeros elementos políticos e econômicos que influem nessa relação. Não se trata de negar os benefícios que a educação traz, muito menos negar que a relação escolaridade e emprego não existe e que é fundamental para a inserção no mercado de trabalho, mas somente facilitar o ingresso de determinadas classes nas universidades está longe de ser suficiente. Pois elevar o número de universitários no país não levará à criação de empregos, o que depende de uma sociedade mais igualitária e de uma política econômica e cultural voltada ao bem-estar coletivo.

É preciso ressaltar estudos de sociólogos que atuam no ramo das ocupações e das profissões que acreditam que a identidade profissional adquirida ao longo de anos de estudo é interrompida ao entrar no mercado de trabalho, pois é mais válido seguir ordens da administração. É ela, desde a Revolução Industrial, que determina qual é o trabalho a ser feito, como ele será realizado e por quem; fragmentando, mecanizando e racionalizando as tarefas em busca de melhor eficiência e resultados financeiros. Acumular funções significa ser competente e este “modelo de competência” imposto pelas empresas causa a desvalorização do diploma.

Afinal, para ingressar no mercado de trabalho é necessário muito mais que isso. Fluência em línguas, cursos no exterior, dinâmica, bom para trabalhar em grupo, conhecimentos técnicos e especialização são apenas alguns dos muitos pré-requisitos para conseguir um emprego, o que não significa que será na sua área de formação, por isso a perda da identidade profissional.

O sistema de cotas para as universidades é uma solução em curto prazo, sem pensar nas conseqüências futuras, pois aqueles aprovados por esse sistema não entrarão no mercado por mérito e sim devido à grande desigualdade social existente no País, que não desaparecerá através das cotas. Transformar o ensino médio e fundamental das escolas públicas e acabar com a deficiente educação brasileira seria tarefa demais árdua para um só governo.

Mas apenas facilitar o ingresso nas universidades é tampar o sol com a peneira e ser um profissional que se formou através do sistema de cotas pode ser ainda mais um empecilho para o ingresso no mercado de trabalho. As empresas, provavelmente, vão querer saber se você é um profissional das cotas. Talvez seja preciso criar também cotas para exercer a profissão.

Sem falar que o preconceito histórico do nosso país continuará a existir, o ensino público deficiente continuará a existir (para que reformulá-lo se ele não é mais necessário para o ingresso no ensino superior?), os inúmeros analfabetos continuarão a existir e existirão também as famílias bem providas que colocarão seus filhos nas escolas públicas apenas para facilitar o ingresso e garantir-lhes o futuro sem desembolsar dinheiro para isso.

A autora, Maria Fernanda de Almeida Ribeiro, é jornalista.

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