Na passada quinta-feira, dia 10, no mundo inteiro a Igreja celebrou solenemente a festa litúrgica da Eucaristia, denominada Corpus Christi (Corpo de Cristo). Na sua riqueza bíblico-teológica, a Eucaristia pode ser enfocada sob os mais diversos prismas. Assim, “Eucaristia e Cidadania” foi um dos diversos temas de reflexão e estudo do 14º Congresso Eucarístico Nacional, celebrado em Campinas-SP, em julho de 2001. À primeira vista destoante, trata-se de um tema de forte conotação social sobre o qual queremos aqui refletir.
Cidadania o que é?
É o exercício dos direitos e deveres relativos à dignidade humana. É o anúncio, defesa e promoção dos direitos fundamentais da pessoa humana. É a denúncia da violação desses direitos, entre os quais sobressaem aqueles que dizem respeito à vida, à saúde, à alimentação, à terra, à moradia, à educação, à liberdade, à boa fama, à reta informação. Os direitos humanos têm sua fonte ou raiz na própria dignidade humana. “Todos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”, reza a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A dignidade humana, por si mesma intocável, foi valorizada ao máximo pelos Mistérios da Encarnação e da Páscoa. O próprio Deus encarnando-se, assumiu a nossa natureza humana; e o Homem-Deus remiu com seu sangue a humanidade! “Absoluta é a dignidade da pessoa humana” afirma o documento 71 da CNBB - Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil (de abril de 2003).
São Paulo nos faz refletir seriamente sobre essa intocável dignidade ao dizer: “Vós não sabeis que sois o templo de Deus”? E põe na boca de Deus esta advertência: “Se alguém destruir esse templo, eu também o destruirei” (1 Cor 3, 16-17)! Nessas palavras do apóstolo delineia-se uma mística ou espiritualidade da cidadania ou dos direitos humanos.
A Cidadania à luz da Eucaristia.
Eucaristia é a Nova Páscoa, a plenificação da Páscoa judaica. A Páscoa que nossos irmãos judeus celebram, lembra a presença de um Deus libertador que toma parte no destino e na vida do povo, como que se envolvendo e se misturando com ele. Um Deus que, através de Moisés, liberta seu povo da opressão social, política e religiosa do Faraó no Egito. Quando o povo de Deus foi libertado da escravidão faraônica, por ordem do Senhor cordeiros foram imolados e com seu sangue sinalizadas as casas dos judeus. Esse sangue poupou as famílias judias do flagelo infligido por Deus - a morte dos primogênitos dos egípcios - que venceu a resistência do Faraó relutante em perder a mão-de-obra escrava dos judeus.
Esses cordeiros imolados e seu sangue estão a indicar, ao longo da história, a morte do Cristo, o Salvador e Libertador prometido, imolado na cruz pela humanidade, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, conforme a expressão de São João Batista. A morte de Cristo realiza a Páscoa, isto é, a passagem da escravidão de toda forma de pecado pessoal, familiar, comunitário e social, para a verdadeira liberdade e a vida plena de filhos de Deus. Tudo isso é a Eucaristia.
Eucaristia é a síntese da vida do Cristo que anunciou a Boa-Nova do amor, da solidariedade, da fraternidade sem fronteiras, da liberdade, da justiça e da paz. Eucaristia é o Cristo, aquele que “veio para servir e não ser servido”, que “nos amou até o fim” e por nós deu a sua vida. Eucaristia é sinônimo de amor solidário que exige o anúncio e a promoção da justiça. Justiça que no sentido bíblico significa a existência de condições dignas de vida para as pessoas, no respeito aos seus direitos fundamentais.
Participar da Eucaristia é comprometer-se com a cidadania que é exímia prática do amor solidário e da justiça. E a Eucaristia é fonte e inspiração, alimento e força para os cristãos serem cidadãos autênticos, sinceramente preocupados com o bem comum, com o bem material, moral e espiritual de toda sociedade. (O autor, Lourenço Maria Papin, é frei)