Quando se apresentou em junho do ano passado no Serviço Social do Comércio (Sesc), a banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado literalmente encantou o público ao mostrar um show diferenciado, carregado de acentos cênicos e poéticos.
O espetáculo trouxe a mistura percussiva do samba de coco, toré indígena, embolada e reisado, que serviu de base para que o vocalista do grupo, José Paes de Lira Filho, o Lirinha, anunciasse suas “letras-poemas”. As canções retrataram o universo lírico do sertão nordestino, sem esquecer de fazer denúncia social.
Essa fórmula - que não se assemelha a nada do que estamos acostumados a ouvir no dia-a-dia - reúne milhares de pessoas em circuitos de shows realizados freqüentemente pelo grupo em várias cidades brasileiras. Entre elas está Bauru, que em tom de bis, recebe novamente a Cordel do Fogo Encantado hoje, a partir das 22h, no Sesc. A exemplo do ano passado, a apresentação abre a festa junina promovida pelo clube.
O Cordel foi criado em 1997, em Arcoverde (sertão de Pernambuco) como uma peça teatral e, durante dois anos, se apresentou no interior nordestino. Em 1999, a produção adquiriu formato de show, estreando no Festival Rec-Beat - evento organizado anualmente durante os quatro dias de Carnaval, no Recife. Mesmo assim, o grupo manteve os elementos cênicos no palco.
“É uma banda que faz um espetáculo percussivo, cênico, musical - usando o violão como instrumento harmônico - e de intervenção poética”, define Lirinha em entrevista concedida por telefone ao Jornal da Cidade.
Essa variedade de elementos é resultado da união das diferentes experiências musicais obtidas pelos cinco integrantes do Cordel. Lirinha traz a poesia oral e dos cantadores nordestinos, a MPB e a harmonia tirada do violão ficam a cargo de Clayton Barros e a referência ao rock vem de Émerson Calado. Somando-se ao trio, os percussionistas Lucas dos Prazeres e Nêgo Henrique mostram o ritmo melódico dos cultos afro-brasileiros.
O resultado é uma sonoridade forte e impactante, que deu ao grupo o título de banda revelação em 2001, em um prêmio concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Nesse mesmo ano, o Cordel gravou seu primeiro disco, cujo título é homônimo ao grupo. O sucesso não ocorreu apenas no Brasil, mas garantiu a realização de diversos shows no Exterior, como turnês na Bélgica, Alemanha e França.
O Cordel teve ainda participações no cinema. A música “O Amor é Filme” faz parte da trilha sonora do filme “Lisbela e o Prisioneiro”, de Guel Arraes. Já a canção “Os Anjos Caídos”, está presente no longa-metragem “Deus é Brasileiro, de Cacá Diegues”. “Os Anjos Caídos” é uma das faixas do segundo CD do grupo, “O Palhaço do Circo Sem Futuro”, cujo repertório constitui a base do show de hoje.
Lançado em janeiro de 2003, o disco dá continuidade ao álbum de estréia, cuja proposta é contar a história da banda, que escolheu seu nome como forma de contar os sentimentos vividos pelos seus integrantes. Apesar de fazer referência à literatura de cordel (manifestação cultural trazida ao Brasil pelos portugueses, no século 16 e caracterizada pelas rimas lidas ou cantadas), o nome da banda não é uma homenagem a esses poemas, afirma Lirinha.
“Cordel do Fogo Encantado representa mais um sinônimo da palavra história. É a história do fogo encantado”, explica o vocalista. A relação do grupo com o elemento fogo traduz, de forma simbólica, a essência dos espetáculos do Cordel. “O fogo expressa nossa característica, a agressividade e o envolvimento misterioso dos espetáculos”, aponta Lirinha, adiantando as sensações da apresentação de hoje.
Novidades
O Cordel preparou algumas surpresas para o show, como a apresentação da canção “Morte e Vida Stanley”. A canção conta com participação especial do músico e poeta pernambucano Gregório Marinho, de São José do Egito, e deverá integrar o repertório do terceiro disco do grupo. “Estamos em fase de pré-produção do próximo CD, a previsão é que ele seja lançado no começo do ano que vem”, adianta Lirinha.
• Serviço
Show com o grupo Cordel do Fogo Encantado hoje, a partir das 22h, no Sesc. Apoio: Jornal da Cidade. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.