Em abril de 2002, um grupo de profissionais coordenado pela médica neuropediatra Niura Aparecida Ribeiro Padula iniciou o trabalho de acompanhamento das 314 crianças contaminadas pelo chumbo emitido a partir do setor metalúrgico da empresa de baterias Ajax, no Jardim Tangarás. Em razão dos bons resultados obtidos ao longo dos últimos dois anos, a equipe quer, agora, que o Ministério da Saúde adote esse modelo de tratamento em casos semelhantes que ocorram no restante do País.
Segundo Padula, que é professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, a repercussão que o trabalho feito em Bauru vem atingindo é o principal trunfo para que isso ocorra. “Ele tem sido bastante citado, inclusive pelo próprio Ministério da Saúde”, relata.
Ela acredita que a criação de um modelo nacional a partir da experiência verificada em Bauru também seria a maneira de transformar um fato negativo em algo que possa, de alguma forma, beneficiar as pessoas que sofram problemas de contaminação no futuro.
O Grupo de Estudo e Pesquisa da Intoxicação por Chumbo em Crianças de Bauru (GEPICCB) é formado por médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, dentistas e profissionais de outras áreas. Eles analisam periodicamente a evolução clínica dos pacientes de zero a 12 anos que foram contaminados e se preparam, agora, para avaliar outras 439 crianças que apresentaram níveis tolerados de chumbo no sangue.
Além do reconhecimento profissional, o trabalho também já rendeu dois prêmios. No ano passado, o grupo foi o vencedor da 3ª Mostra Nacional de Experiências Bem-Sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (Expoepi), realizada em Salvador.
Neste ano, o projeto foi escolhido como o terceiro melhor entre os 500 concorrentes ao Prêmio Brasil Solidário Aché, concedido aos profissionais da saúde que tenham se destacado em trabalhos de caráter humanístico.
Após a interdição do setor metalúrgico da Ajax, a Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) também passou a monitorar a presença de chumbo na área. No mês passado, o órgão divulgou que o bairro onde fica a fábrica está livre da contaminação.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Padula ao Jornal da Cidade na última terça-feira.
Jornal da Cidade - Como surgiu a oportunidade da senhora coordenar o trabalho de acompanhamento das crianças afetadas pelo chumbo?
Niura Aparecida Ribeiro Padula - Em 2002, a Cetesb fez uma análise de solo e do ambiente ao redor do setor metalúrgico da empresa de baterias e declarou que realmente havia uma contaminação por chumbo. Com isso, a Secretaria de Estado da Saúde foi acionada e fez, inicialmente, a avaliação de 31 crianças para saber se elas tinham algum nível de contaminação ou não. Foi verificado, naquela época, que algumas tinham. Eles me ligaram, então, porque queriam que uma neuropediatra fizesse uma avaliação. Eu me propus a fazer o atendimento em Botucatu, mas na semana seguinte a secretaria resolveu fazer uma análise em um raio de um quilômetro ao redor da fábrica e o número de crianças contaminadas foi aumentando, até chegar a 314 com nível acima de 10 microgramas de chumbo por decilitro de sangue, considerado perigoso pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ao invés de receber essas 314 crianças em Botucatu, decidi vir para cá. Elas não poderiam, porém, ser vistas apenas do ponto de vista neuropediátrico, porque a contaminação por chumbo mexe com vários aspectos do indivíduo. Foi proposto, então, uma equipe multidisciplinar, com psicólogos, fonoaudiólogos, otorrinos e pediatras.
JC - Que instituições integram o grupo?
Padula - A equipe é multi-institucional, porque estão juntos o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (Centrinho/USP), Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), Faculdade de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, associados à Secretaria Municipal da Saúde.
JC - Como foi o início dos trabalhos?
Padula - Resolvemos que a primeira coisa a ser feita seria a assistência. Todas as crianças foram vistas e encaminhadas para as respectivas especialidades a que deveriam ser submetidas. Aquelas que apresentaram nível superior a 25 microgramas de chumbo por decilitro de sangue foram internadas para tratamento e receberam toda a medicação através do Ministério da Saúde. As outras continuaram sendo acompanhadas. Como eram muitas crianças, a prefeitura também decidiu montar um ambulatório específico para isso, que é coordenado pelo neuropediatra Plínio Marcos Ferraz, que trabalha no Hospital Estadual Arnaldo Prado Curvêllo (HE). Ele atende semanalmente os retornos dessas crianças do ponto de vista pediátrico e neuropediátrico, com a minha supervisão. Além disso, toda a equipe continua atendendo essas crianças evolutivamente.
JC - Qual foi o principal obstáculo que vocês encontraram?
Padula - Inicialmente, houve muita dificuldade, porque as famílias ficaram extremamente ansiosas e com muito medo, achando que iriam ter um problema agudo com essas crianças. Aos poucos, tivemos que ir acalmando as pessoas e avaliando criança por criança. Outra dificuldade, de fato, foi coordenar uma equipe multidisciplinar, principalmente pelos horários, já que a maioria dos profissionais são professores universitários que têm um nível de responsabilidade muito grande. Foi difícil juntar todo mundo.
JC - Que tipo de problemas a contaminação por chumbo pode trazer às pessoas?
Padula - Pode ser um problema de comportamento, aprendizagem, dentário, psicológico, médico, ou seja, de vários tipos.
JC - E como as crianças que apresentaram alto nível de contaminação têm reagido ao tratamento?
Padula - Tem havido uma queda geral no nível de chumbo no organismo, o que é importante. Já estamos sentindo essa melhora. Há alguns casos esporádicos em que têm havido aumento do nível ou ele tem se mantido estável. São casos que estão sendo avaliados de forma individual, porque podem estar relacionados ao próprio organismo da criança ou a uma contaminação específica daquela casa. O acompanhamento está sendo feito. Nossa preocupação, agora, é parecida com a que se tem em relação à vacinação. Desde que se instituiu a Sabin, há campanhas e as pessoas se acostumam a participar delas. Se, de repente, houvesse o término dessas campanhas, haveria um problema para manter a população consciente de que precisa continuar vacinando as crianças anualmente. No nosso caso, estamos dando toda uma estrutura para que as pessoas tenham o serviço a seu favor, mas elas precisam continuar levando as crianças até esse atendimento multidisciplinar e colhendo o sangue pelo menos uma vez por ano, para saber se os níveis estão baixando.
JC - Qual a próxima etapa do trabalho?
Padula - Estamos priorizando as 314 crianças de zero a 12 anos que estão com níveis acima de 10 microgramas de chumbo por decilitro de sangue, mas de agora em diante todo o universo será avaliado. Tudo o que fizemos para esse primeiro grupo será estendido para quem não tinha nível nenhum de chumbo, mas estava em um ambiente contaminado, e para quem tinha índices entre cinco e 10 microgramas de chumbo por decilitro de sangue. Eles irão passar por todo o atendimento multidisciplinar que os outros passaram.
JC - E os adultos?
Padula - A população adulta tem uma tolerância maior ao chumbo do que as crianças. Os níveis de contaminação para eles são acima de 40 microgramas de chumbo por decilitro de sangue. Os riscos de absorção também são menores, porque as crianças estão mais em contato com a terra e podem estar desnutridas e anêmicas. O risco da população adulta está mais nos trabalhadores. Nessa população, foi feita uma análise amostral e se chegou à conclusão de que eles não necessitavam do mesmo acompanhamento que está sendo feito com as crianças.
JC - É possível prever quanto tempo ainda irá durar esse trabalho?
Padula - Não temos uma idéia exata. Pretendemos, pelo menos nos próximos cinco anos, fazer o acompanhamento dessa população. Também pretendemos que esse tipo de atendimento, que tem sido elogiado pelo Ministério da Saúde, laboratórios e órgãos de saúde em si, seja um modelo reaplicável. Que a gente tenha criado uma situação que possa servir de modelo para qualquer outra do gênero, em qualquer lugar do País.
JC - E como está esse processo?
Padula - O Ministério da Saúde tem proposto ações no sentido de que haja um órgão específico para envolvimento com problemas ambientais. Eles estão criando uma equipe com pessoas de vários ministérios e, a partir daí, essa seria a base para entrarmos com sugestões para esse grupo ou para qualquer outro que possa, dentro da política ou dos órgãos responsáveis, nos ajudar para que esse modelo seja aceito.
JC - A senhora acredita, então, que esse modelo aplicado em Bauru possa ser adotado como padrão em todo o País?
Padula - Ele tem sido um trabalho bastante citado, inclusive pelo próprio Ministério da Saúde, como um exemplo positivo de proteção às pessoas. Espero que ele tenha outras repercussões e possa beneficiar não só a população de Bauru, mas também do Brasil inteiro. Esse é o pensamento de quem faz um trabalho multidisciplinar e não custa sonhar um pouquinho. Outra coisa que queremos difundir e até tentar, no futuro, é fazer com que o Brasil adote o mesmo procedimento dos países desenvolvidos, onde é feita a coleta do nível de chumbo em todas as crianças até 1 ano de idade. Com essa rotina, eles conseguem caçar os casos de contaminação e, a partir deles, avaliam determinado ambiente para saber o que há de errado ali. Em Bauru, nós fizemos o contrário. Partimos do problema da empresa para chegarmos ao indivíduo.
JC - Que tipo de apoio vocês receberam da empresa?
Padula - Até o momento, ela tem providenciado tudo aquilo que eu e a secretaria temos pedido, inclusive fornecendo transporte para que as crianças possam ser atendidas. A empresa se mostrou aberta e se colocou à nossa disposição. Eles têm, inclusive, comprado tubos para a coleta de sangue.
JC - Em dois anos de trabalho, o grupo que a senhora coordena já recebeu dois prêmios nacionais. A senhora esperava esse retorno?
Padula - De jeito nenhum, mesmo porque temos divulgado muito pouco esse trabalho. É bom deixar claro, porém, que a idéia inicial não foi essa, e sim dar uma resposta à população daquela área e fazer o que era possível naquele momento. O prêmio que recebemos este ano do Laboratório Aché é em dinheiro. Ele deve ser voltado exclusivamente para a população e resolvemos que iremos fazer algumas cartilhas explicativas sobre o problema do chumbo e que cuidados as pessoas devem ter com o meio-ambiente em que vivem. Junto, vamos colocar dicas de alimentação, porque a desnutrição piora muito os efeitos da contaminação por chumbo, aumentando os riscos de intoxicação. Esperamos que isso sirva para toda a população de Bauru, para que ela fique atenta aos sintomas da contaminação. As coisas não podem esfriar. Elas precisam ficar para sempre.
JC - A contaminação por chumbo é um fato negativo, especialmente para as pessoas que foram atingidas. A senhora diria que esse trabalho de acompanhamento dos pacientes que vem sendo feito é uma forma de transformar esse quadro?
Padula - Com certeza. Precisamos usar todas as coisas que acontecem para o bem. Há um autor que diz que experiência não é aquilo que nos acontece, e sim aquilo que nós fazemos com aquilo que nos acontece. Isso desde os casos individuais até o de uma população ou comunidade. Bauru está fazendo algo de bom a partir de algo desagradável, quando outras experiências no Brasil não têm sido tão bem sucedidas em termos de atendimento.