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As moscas


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Foi nos anos 80 do século passado, chamado de década perdida, quando se aguçaram as crises provocadas pela disparada dos preços do petróleo, que nasceu um partido que prometia mudar tudo o que havia de errado no Brasil. Durante mais de 20 anos, o PT pregou mudanças e fez oposição ferrenha a tudo aquilo que se opunha a essas mudanças. Ganhou governos Estados e municípios importantes, mas somente em 2002 seu candidato, Luiz Inácio Lula da Silva, conseguiu eleger-se presidente da República, após três tentativas frustradas. Obteve alguma credibilidade externa para um país sempre em crise, mas sem mudar nada na política econômica responsável pelas nossas crises sistemáticas, como endividamento externo além da capacidade de pagar (só se pagam os juros), arrocho fiscal, juros altos, pé firme no freio do desenvolvimento, perda de valor aquisitivo dos salários e desemprego.

Na semana que passou, assistimos ao espetáculo deprimente proporcionado pela Câmara dos Deputados durante a votação do novo salário mínimo de R$ 260. A oposição ao governo, colocando em prática o que aprendeu com os petistas nos últimos oito anos, levou até mesmo um caixão para o plenário, maneira de denunciar uma suposta insensibilidade social de fazer corar o mais rasteiro dos populistas. Houve de tudo um pouco: uma pequena quitanda montada na entrada do plenário, com pãezinhos e papel higiênico, entre outros produtos de primeira necessidade que o cidadão comum poderia comprar com os R$ 15 a mais que o Senado aprovara e que a oposição pretendia manter. Votaram contra o salário mínimo de R$ 275 partidos de esquerda como o PcdoB e o PSB.

É difícil ir contra uma proposta de aumento do mínimo, pois elas são vendidas para o grande público como salvação do País frente a vários problemas cruciais, como os da pobreza, da má distribuição de renda ou da falta de crescimento econômico. O fato concreto, embora altamente impopular é que não dá para conceder aumentos reais ao salário mínimo enquanto ele for piso de benefícios previdenciários e assistenciais. Esses benefícios, somados aos das aposentadorias do serviço público, comem 68% das receitas da União. Adicionando-se 13% destinados ao controle da dívida pública mais os 8% do piso constitucional destinado à saúde, chegaremos praticamente aos 90%. Sobram 10% para investimentos públicos, “Fome Zero”, merenda escolar, manutenção e miudezas como as viagens do presidente ao Exterior, pagamento do seu novo avião e liberações orçamentárias para os parlamentares da base governista continuarem votando conforme o figurino do ministro da Fazenda. Aliás, quando deputado, Palocci compareceu à Câmara empurrando um carrinho de supermercado com as mercadorias que, à época, dava para comprar com o salário mínimo que FHC queria ver aprovado. “Salário-miséria” - adjetivou.

Como se observa, o Brasil continua o mesmo. As moscas é que trocaram de lado. Agora, como os petistas faziam com os seus grandes painéis denunciadores dos “traidores do povo”, os oposicionistas vão fazer o mesmo nas eleições municipais. Para tanto exigiram que a votação da Medida Provisória de Lula com o novo salário mínimo fosse nominal. Vão usar essa relação nas campanhas eleitorais. Tudo como sempre.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.

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