Em geral, os filmes tidos como não-comerciais não contam com grandes aparatos tecnológicos, não possuem gastos exagerados em produção e divulgação, e também não se prendem a roteiros específicos. Pelo contrário, buscam sempre inovar a estética cinematográfica trazendo histórias originais, algumas com forte carga dramática.
Talvez seja por isso que esses filmes - muitas vezes concentrados na sessão cult das locadoras - agradem a um grupo de pessoas também específico, a maioria cinéfilos, que se importa mais com a qualidade e menos com a quantidade de prêmios ou números de bilheteria que essas produções tiveram.
É o caso do arquiteto Fabrício Aro, de 25 anos. Ele já assitiu a quase todos os clássicos da linha cult e de arte e afirma ser um “cinéfilo escaldado”. “Hoje em dia, com muita coisa já feita e explorada, costumo ver só o que há de novo em termos de estética da cinematografia, o que for lugar comum em relação à produção ou efeitos especiais, eu não tenho interesse”, revela.
Exigente na escolha dos filmes, Fabrício conta que prioriza os roteiros elaborados, como no filme “Dogville”, de Lars von Trier. Já as mega-produções, como a trilogia de “Matrix” ou “Tróia”, não lhe agradam. “‘Dogville foi um divisor de águas para mim, o diretor tirou qualquer excesso em questão de roteiro e produção e fez um filme muito bom. ‘Matrix Revolutions’ gastou 30 milhões de dólares em computação gráfica”, aponta.
Os filmes “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson; “Peixe Grande”, de Tim Burton; “Os Outros”, de Alejandro Amenábar; “Histórias Proibidas”, de Todd Solondz; e “21 Gramas” e “Amores Brutos”, ambas de Alejandro Iñárritu, também fazem parte da seleção predileta de Fabrício.
O longa “Amores Brutos”, que mostra um roteiro complexo ao trabalhar com cachorros em três histórias diferentes, também é citado como um dos preferidos pelo funcionário de uma locadora da cidade, Victor Croffi de Camargo, de 25 anos, e pela estudante de jornalismo Karla Tamarozzi, de 18 anos. Ambos também se encaixam no grupo de amantes dos filmes não-convencionais.
“Gosto bastante de filmes estrangeiros. Eles são mais bem feitos, não são produzidos somente para se ganhar dinheiro, mas para mostrar alguma coisa, como o lado político”, diz Victor, que adorou assistir “Nove Rainhas”, de Gregory Jacobs; “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, de Jaen-Pierre Jeunet; “Adeus, Lênin!”, Wolfgang Becker; e “O Filho da Noiva”, de Juan Campanella.
Karla tem a mesma opinião de Vítor. Sua lista de filmes preferidos traz algumas produções já citadas por ele, e também “Morango e Chocolate”, de Tomás Gutierrez Alea. “Sou apaixonada por cinema, uma ‘rata’ de locadoras. Os filmes europeus, argentinos e mexicanos são meus preferidos. Eles são muito bons e muitas vezes não são premiados”, conta Karla. “Além disso, eles fogem do padrão americano”, completa.
O designer e estudante de educação artística Ricardo Botta, de 28 anos, concorda com Karla, e afirma evitar assistir produções americanas. “Não gosto muito de filmes hollywoodianos porque eles já têm roteiros prontos. Já o cinema europeu é mais teatral e as temáticas são mais humanas”, diz.
Para Ricardo, a comédia inglesa “Beautiful People” - de 1999 e dirigido por Jasmin Dizdar -, o grego “Paisagem na Neblina” (1998), de Theo Angelopoulos, e o drama alemão “Devot” (2002), de Igor Zaritzky, são exemplos de grandes filmes.
“‘Devot’ se passa dentro de um galpão e mostra dois estranhos, um homem e uma mulher que e conhecem na rua e ficam o filme todo se degladiando. É uma guerra psicológica que não tem efeitos especiais”, destaca o designer. Ele também se interessa por alguns roteiros nacionais, em especial os dirigidos por Carla Camuratti nos anos 80. “Um des seus filmes, ‘O Olho Mágico do Amor’, é meio pornochanchada e retrata o comportamento de uma época”, detalha.
Curtas
Com roteiros originais e contando com baixo custo de produção, os curtas-metragens também costumam agradar os cinéfilos. “Almas em Chamas”, de Arnaldo Galvão - que ganhou prêmio especial do júri no 28.º Festival de Gramado de 2000 - retrata uma história de amor é um dos representantes do gênero. “É uma animação muito legal”, opina Ricardo.
Segundo o designer, além da boa qualidade, os curtas também podem ser assistidos por meio de sites eletrônicos. “Isso facilita porque qualquer pessoa pode assistir”, diz. Esse fator, aliás, é um ponto positivo na hora de encontrar filmes não-convencionais, já que muitos são considerados raros nas prateleiras das locadoras. “Alguns são bem difíceis de achar, muitos só existem em VHS”, reclama Victor. “Não é nada fácil de achar esses filmes”, concorda Karla.
Termômetro
Os filmes não-comerciais também não costumam ser indicados ao Oscar - quando isso acontece, geralmente não recebem troféus. Muitas vezes, são premiados no Sundance, Festival de Berlim, Veneza ou em Cannes, conhecidos como principais festivais de cinema do mundo. Estar fora do circuito americano pode funcionar como um termômetro positivo, defende Karla. “Em eventos alternativos, acabo descobrindo obras-primas”, observa.
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Filmes para descobrir
• “Trem da Vida” (1998), de Radu Mihaileanu
Década de 40, início da Segunda Guerra Mundial. Esse é pano de fundo para a comédia franco-belga-holandesa sobre a história de judeus da Europa Oriental, que se disfarçam como passageiros de um trem nazista para escapar da fúria dos alemães. Com elenco e trilha sonora ótimos, a comédia consegue mostrar o drama da guerra com leveza e boa dose de humor.
• “11 de Setembro” (2002), de vários diretores
Documentário que lembra os primeiros ataques às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Yorque. Produzido por 11 diretores de diferentes nacionalidades, como o mexicano Alejandro Iñárritu e o americano Sean Penn, - o filme mostra polêmicos pontos de vista sobre a tragédia que abalou o mundo.
• “21 Gramas” (2003), de Alejandro Iñárritu
O drama se concentra no sofrimento do professor Paul Rivers (Sean Penn), que recebe um coração transplantado do marido morto de Cristina (Naomi Watts), que também perdeu as duas filhas em um terrível acidente provocado por Jack (Benicio Del Toro). Ao abordar com muita sensibilidade a finitude humana, a história se aproxima do espectador, transformando-o em cúmplice.
• “Wasabi” (2001), de Gérard Krawczyk
Nem todo filme francês é de arte ou parado. “Wasabi” é um divertido policial escrito por Luc Besson (“O Quinto Elemento”). Jean Reno é Hubert, um detetive que vai para o Japão, onde morou no passado, para tentar descobrir - com seus métodos pouco ortodoxos - o que aconteceu com sua ex-namorada, que sumiu de uma hora para outra.
• “Amém” (2002), de Constantin Costa-Gavras
O diretor grego tem em seu currículo obras como “Z” e “Missing - Desaparecido”, que são obrigatórias. Em “Amém”, um filme francês, ele volta à boa forma tocando numa ferida da Igreja Católica, a sua omissão diante da morte dos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Ulrich Tukur é um oficial nazista que, com a ajuda de um padre jesuíta (Mathieu Kassovitz) tenta alertar o Vaticano sobre o que acontece nos campos de concentração do Leste Europeu.
• “Invasões Bárbaras” (2003), de Denys Arcand
Apesar de ter vencido o Oscar de filme estrangeiro para o Canadá o fato de não ter passado nos cinemas em várias cidades tem prejudicado a vida deste drama que continua a história de “Declínio do Império Americano”, de 1986. Rémy (Rémy Arcand) descobre que está com câncer e precisa recuperar as relações que teve durante a vida enquanto lhe resta tempo. Sensível.
• “Adeus, Lênin!” (2003), de Wolfgang Becker
Aclamado pelo mundo, o filme de Becker brinca com as mudanças pelas quais passou o mundo, em especial a Alemanha na década de 90. O jovem Alex (Daniel Bröhl) tem que fazer tudo para evitar que sua mãe (Katrin Sass), que acabou de acordar de um coma e não pode se emocionar, descubra que o Muro de Berlim caiu e as coisas não são mais como eram antes.
Cenas adicionais
• “Quero Ser John Malkovich”
• “Dançando no Escuro”
• “Viridiana”
• “Oito Mulheres”
• “O Quarto do Filho”
• “Houve uma Vez Dois Verões”
• “O General”
• “Antes da Chuva”