Gregos e baianos, latinos e africanos, hindus e demais orientais. Todas as etnias estiveram presentes no maior evento da moda brasileira, que apontou o vestido como a peça-chave do guarda-roupa da primavera e do vereão de 2005.
A maratona de desfiles da 17.ª edição da São Paulo Fashion Week terminou na noite de terça-feira, mas a corrida fora das passarelas começa agora, quando os lojistas fecham os seus pedidos sob as encomendas do público e dos editoriais que ditam as tendências da próxima estação. Opção de escolha é o que não falta. Foram 47 desfiles com uma média de 40 looks, que devem chegar às lojas somente no mês de setembro.
Destaque para as peças de cetim, de Alexandre Herchcovitch que, além de sua grife, ainda é diretor de criação, da Cori, onde propôs vestidos e saias muito fluídos, femininos em cetim texturizado com ilhoses coloridos, que resultaram num novo caimento ao tecido. Para o estilista, a mulher deste verão revela o corpo sem ser justa.
Nesse sentido, Lino Villaventura costurou uma das mais belas coleções apresentadas com vestidos transparentes em diferentes tonalidades. Para intercalar com o ouro, tons de cru e alguns pretinhos básicos aqui e ali são arrematados por costuras douradas ou por bordados de flores graúdas. A sensualidade é exalada em fendas despudoradas e babados laterais, bordados e apliques.
As formas geométricas compuseram o trabalho da Alphorria em decotados vestidos de pontas rosa, verde e cru ou de cores acesas, que mostram pernas, colos e costas, de maneira inusitada e sexy.
Mesmo com uma linha básica inspirada em safáris, a Huis Clos trouxe uma moda em preto, branco, cáqui e marinho que pode ser usada com elegância a qualquer hora e por qualquer corpo. Até uma mulher obesa ficará bem em seus modelos afro-europeus com toque de Brasil.
A Patachou, que ficou conhecida pelos tricôs, trouxe vestidos beges com texturas que parecem ter sido desenvolvidas por centenas de aranhas, cada qual com sua forma e espessura que, sobrepostas, enriqueceram os looks. Bordados em canutilhos, cristais e paetês ressaltavam a delicadeza de algumas tramas e evocavam feminilidade. Num segundo momento, entram as cores fortes: amarelo, turquesa, rosa suave, verde-água e vermelho, que viraram lindas estampas florais.
Grifes conhecidas como Zoomp e Iódice trouxeram cor para a passarela. Na coleção de Renato Kerlakhian, a cintura é o foco da moda feminina. Seja marcada nas costas ou abaixo dos seios. Os vestidos hora são gregos, ora hippies, ora sérios, que lembram as roupas de séculos passados com mangas bufantes e saias balonês.
Já Waldemar Iódice, além do jeans e do branco, usou bordados multicoloridos em vestidos curtos ou longos, esvoaçantes, com ênfase nos decotes marcados e estruturados. O sensualidade latina divide espaço com decotes e babados.
Branco total
A grife espanhola Custo Barcelona se inspirou na monocromia do branco com variações de ouro e prata para compor peças que podem ser usadas por mãe e filha ao mesmo tempo. Os vestidos espanhóis lembram lingeries com formas envolventes, ora de camisola, ora de penhoar.
O branco também é unanimidade nas criações da cooperativa de jovens estilistas que há dois anos formam a Ellus 2nd Floor, grife que ocupa o segundo andar da madrinha Ellus, que por sua vez reforçou o apelo do jeans de luxo e apresentou uma coleção inteirinha em índigo blue e black jeans todos com processos de lavagem industrial e customização manual que tiram o caráter básico das peças e as transformam em roupa de festa, se bobear, a rigor, sem pecados.
Meio x fim
O branco também fez parte dos desfiles filosóficos do paulistano Jum Nakao e do paranaense Jefferson Kulig que, através de performances, mostraram que atitude vai além do guarda-roupa. Kulig usou camisetas estampadas com frases como meio de “contaminar” as pessoas com suas idéias do tipo: “Triste época. Mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito”. O estilista ainda mostrou vestidos com muitas fitas e patchwork, ao som da 9.ª Sinfonia de Beethoven.
Mas foi Nakao quem ganhou aplausos de pé e os comentários pelos demais dias de desfile. O branco puro deu vida a modelos de malha negra e perucas de playmobil. Os vestidos eram feitos de papel, bordados a laser e agulha como cartões de papel vegetal e foram rasgados ao final da apresentação que deixou o público, e até os fotógrafos, de boca aberta. Ele criou um mito e uma crítica ao consumo desenfreado ao destruir todos os vestidos, que foram imortalizados na filmadora do estilista.
Na próxima estação, os vestidos estarão tão em alta que até os estilistas de moda masculina como Mário Queiroz e Maxime Perelmuter, da British Colony, apostaram nos vestidos, saias e saídas de banho para os homens.