Merece comemoração a primeira década do Plano Real, pelo seu significado econômico. Afinal, em 1994, a taxa de inflação chegou aos 40% ao mês e a continuar naquele ritmo terminaria o ano em 5.000%, o que seria uma catástrofe nacional. Outro mérito: acabou com o sistema de correção monetária, realimentadora do processo. Para se ter uma idéia da dimensão do problema, a taxa de inflação entre 1994-2004 deverá ser da ordem de 140%. Na década anterior ao Real, pasmem, alcançou 200.160.601.287%. Está tudo no boletim da Confederação Nacional da Indústria. Todavia, o Plano Real venceu a inflação – que mesmo assim ainda teima em botar a cabecinha para fora -, mas não a desigualdade, o desemprego, a pobreza, a perversa distribuição de renda e não permitiu que ocorressem taxas satisfatórias de crescimento da economia. Como diz o professor Edmar Bacha, um dos pais do processo, não ocorreram “conquistas sociais duradouras”.
Se alguém levou vantagem com o Real, tenho certeza de que não foram as pessoas de carne e osso. Caímos na velha piada do cavalo inglês, aquele que morreu de fome justamente quando havia aprendido a deixar de comer. São três milhões de desempregados. A economia nacional passou do 12.º para o 15.º lugar em nível mundial. Apenas 9% dos jovens, de 18 a 24 anos, cursam a universidade (na Bolívia essa taxa é de 20% e de 40% na Argentina). Uma de cada três pessoas vive na miséria, no Brasil, correspondendo a 33% da população e a 56 milhões de habitantes.
A política econômica do governo Lula, que começou sob o signo da esperança porque iria substituir o monetarismo ortodoxo de Fernando Henrique Cardoso, apesar da fé de muitos, depara-se com a decepção e o desencanto dos brasileiros. Mostrou-se ainda mais conservadora. Pelo menos por enquanto ou em quanto durarem os juros obscenos.
Como dizia o ministro Delfim Netto, no tempo da ditadura militar, é preciso “esperar o bolo crescer” para depois repartir. O bolo só tem crescido, e deliciado, por quem já tem dinheiro. Veja o lucro dos bancos. Para a patuléia ainda não sobraram nem as migalhas.
Tudo bem. Livramo-nos da mega inflação avassaladora. Parabéns. Só que o povo ainda não tem o que comemorar. Quem sabe um dia... (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)