Cultura

Patrimônio ameaçado

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

A Biblioteca Municipal “Rodrigues de Abreu” e suas seis unidades ramais têm os únicos acervos abertos a toda a população bauruense. Através de serviços gratuitos de pesquisa, empréstimo de livros e atividades culturais, esses espaços buscam democratizar o acesso à produção literária e incentivar a leitura. Justamente por isso, a biblioteca é considerada um patrimônio público da cidade.

Porém, o título parece não conferir-lhe semelhante respeito. A Secretaria Municipal de Cultura (SMC) está realizando uma sindicância para apurar o desaparecimento de dezenas de livros do acervo da Biblioteca “Rodrigues de Abreu”, conhecida como unidade central - o problema não ocorreu nas ramais.

Após a informatização da biblioteca, realizada em agosto do ano passado, o órgão percebeu que os números de obras cadastradas nos relatórios anteriores (elaborados manualmente), eram superiores à quantidade existente.

Além disso, há aproximadamente quatro meses, a SMC detectou alguns exemplares sendo comercializados em um sebo local. Após checagem, a secretaria percebeu que diversas obras realmente não constavam nas prateleiras. “Os livros que estavam no sebo eram carimbados e identificados como pertencentes à biblioteca. Fizemos um boletim de ocorrência e abrimos uma sindicância interna na Prefeitura Municipal para verificar como esses livros saíram da biblioteca”, explica o secretário municipal da Cultura, Sérgio Losnak.

O resultado das investigações ainda não foi concluído, mas algumas hipóteses para explicar o sumiço dos livros podem ser apontadas, diz Losnak. “A polícia e a sindicância estão trabalhando com diversas possibilidades. Uma é de que o sócio que pegou um livro não o devolveu e pode até ter vendido esse livro. A outra colocação é de que alguém pode ficar no meio da estante e colocar o livro, por exemplo, dentro da camisa”, observa.

A perda parcial do acervo fez com que a SMC adotasse uma série de medidas para controlar os serviços prestados e garantir a preservação do acervo da biblioteca central. O órgão criou um regulamento que estabelece regras de funcionamento e utilização da unidade e suas ramais, que foi publicado em Diário Oficial no dia 24 de junho.

O decreto n.º 9.803, denominado Sistema Municipal de Bibliotecas, torna obrigatório o cumprimento de alguns critérios, como normas de consulta, locação e devolução dos livros e pagamento de multas por atraso, entre outros itens. As regras já existiam, mas não eram oficiais, explica a diretora da Divisão de Bibliotecas, Elizete Maria Barro.

“Antes falávamos (sobre as normas) apenas oralmente, não havia nada oficial. Vamos fazer cópias do regulamento e distribuir para os usuários”, esclarece Elizete. “Esse regulamento instituiu o valor de multa e vai nos dar base para penalizar quem não devolver o livro, por exemplo”, comenta Losnak. “Temos que ter essa legalidade porque a biblioteca é patrimônio público”, completa ele.

Além disso, a SMC realizará uma conferência geral de todas as obras cadastradas na biblioteca central. Para isso, fechou temporariamente seu acervo, que antes oferecia livre acesso aos usuários. Isso significa que, para alugar um título, o sócio deve consultá-lo via computador - são dois terminais instalados no local - e sua retirada deve ser feita por um funcionário. “O controle é bem maior, mas isso acaba dificultando o contato do leitor com a obra. A proposta da biblioteca é ter um acervo aberto e ela terá”, afirma Losnak.

O acervo da biblioteca central permanecerá fechado até o dia 20 de julho (todo o atendimento também será suspenso). Em agosto, a unidade será novamente aberta. Mudanças estruturais também serão feitas na biblioteca: as prateleiras serão posicionadas para melhorar a visualização dos usuários e o espaço de entrada e saída do local ficará mais restrito. “Vamos colocar também um vigilante dentro da biblioteca”, detalha Losnak.

Outra destaque do plano de reestruturação da biblioteca ficará por conta da ampliação da Brinquedoteca - sala onde acontecem atividades lúdicas para crianças . Atualmente em reforma, ela ganhará palco e espaço para exibição de filmes. Segundo Elizete, a Brinquedoteca deverá ser inaugurada ainda este ano, juntamente com a Gibiteca. A sala será recheada de revistas em quadrinhos e também promete manter exposições sobre o tema e oferecer workshops com ilustradores.

Usuários

As medidas de controle não alteraram a rotina da biblioteca, que costuma receber cerca de 100 pessoas por dia. Marília Gabriela Porem, de 18 anos, é uma das freqüentadoras assíduas do local. “E um lugar calmo que escolhi para estudar para o vestibular. Geralmente encontro os livros que preciso, principalmente os de português e matemática”, diz. O fato do acervo estar fechado não a incomodou. “Acho até melhor, porque quando procuro sozinha, às vezes, não encontro”, justifica.

O estudante Luiz Fernando Ortiz da Rocha, 21 anos, também utiliza os serviços da biblioteca. “Costumo vir para estudar ou fazer algum trabalho da escola. A biblioteca possui muitos livros e dicionários, está tudo à mão”, aponta. A pequena Paloma Fiotto Galvão, de 8 anos, concorda. “Aqui tem muitos livros, venho sempre”, diz ela, enquanto “devorava” uma coleção de gibis, um de seus passatempos favoritos.

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