Pode não parecer, mas a história de jornalismo desse homem tem 34 anos. Ela começa em Tupã, quando o moleque Arnaldo Duran, aos 13 anos, passava trotes ao vivo em uma rádio com a voz do Topo Gigio (o ratinho italiano que usava pijamas e que fez sucesso no mundo todo). Ele percorreu o Interior trabalhando em rádio e foi editor por muitos anos no Jornal da Cidade, antes de ir para a televisão (de óculos e barba) e fechar um ciclo de veículos. Foi para a São Paulo e de lá para Nova York. É... o talentoso caipira virou correspondente internacional.
Quando estava fascinado por rock dos anos 50 e 60, quis voltar ao Brasil e se tornou o principal repórter do Carnaval carioca. Justo ele, que só conhecia de perto, mas nem tanto, os desfiles da Mocidade da Vila Falcão e da Cartola. Bom sujeito que é, apaixonou-se pelo samba e parece que não vai se separar dos tamborins tão cedo.
Segundo Duran, a observação é sua principal característica, diz dormir de óculos, ter mania de camiseta branca e que já teve problemas com sua timidez...
Em seus últimos dias de férias, matou saudade da família e dos amigos em Bauru. Numa visita ao JC, quase escapou da entrevista, marcada para o dia seguinte. Jura que quis desmarcar, tamanha vergonha. Porém, como excelente profissional, chegou pontualmente no horário combinado. A seguir, os melhores trechos.
Jornal da Cidade - Você seria capaz de editar uma breve história do Duran?
Arnaldo Duran - Começa em 1970, em Tupã. Eu ouvia rádio e passava trote no locutor, que mais tarde as pessoas vieram me falar que era com a voz do Topo Gigio. Eu passava trote... Falava com uma voz normal e quando entrava no ar eu fazia uma voz esganiçada, diferente. Um dia o locutor me falou: ‘olha, venha aqui na rádio que o gerente quer falar com você’. E eu fui, morrendo de medo, pedindo pelo amor de Deus para o gerente não contar para o meu pai. Estava com medo de apanhar. Achei que ele fosse me dar uma bronca, mas não queria me convidar para gravar um comercial e em seguida, apresentar um programa de historinha infantil. Logo depois comecei a ajudar no jornalismo. Trabalhei em rádio em São Carlos. Vim para Bauru, acho que em 72. Aí trabalhei em todas as emissoras, na Auri-Verde, na Bauru Rádio Clube, que era a PRG 8, na Rádio Terra Branca, trabalhei duas vezes no Jornal da Cidade e no Diário de Bauru também. Aqui fui pauteiro, repórter, editor local, editor internacional e era muito legal.
JC - E como foi parar na televisão?
Duran - Eu trabalhava aqui no JC, em 83, e o irmão do fotógrafo Malavolta Jr., o Luís, que me convidou para fazer um teste na TV. E eu fui, mas naquela época eles não deixavam repórter que usava óculos ir ao ar. Eu sempre usei óculos e eu era barbudo e não queria cortar a minha barba (risos). Mesmo assim fiz o teste aqui, fiquei uma semana e pouco e já me mandaram para São Paulo. Voltei para Bauru depois de um certo tempo, quando eles fizeram a TV Oeste Paulista, fiquei mais uma temporada aqui e fui para Rio Preto, Marília. Aí o Luiz Carlos Azenha que trabalhou no JC, também desde criança, me levou para a TV Manchete. De lá fui para a TV Record, voltei para a Globo, fui para o SBT, onde fiquei dez anos e, em 91, fui para os Estados Unidos, passei oito anos como correspondente internacional, trabalhei cinco anos em Nova York e três anos numa emissora chamada CBS Telenotícias, que era um canal que transmitia em português para o Brasil. Montei uma produtora lá também que alugava equipamentos e prestava serviço para outras emissoras no Brasil, latino-americanas e da Espanha.
JC - A volta para o Brasil foi como?
Duran – Chegou o inverno e quis voltar para o Brasil. Liguei para a Globo e eles me chamaram para o Rio. Deixei minha mulher e meus dois filhos lá. E no dia 11 de setembro, quando teve o atentado às torres gêmeas, tinha feito um ano de Globo no Rio, estava passando minhas férias lá e tudo aquilo aconteceu. Foi um transtorno na minha vida! Cobri o atentado também e fiquei um mês, lá, pensando o que fazer. Os meus filhos estavam lá estudando jornalismo...
JC - A TV brasileira está muito aquém do primeiro mundo ou não?
Duran - A programação da TV brasileira é muito boa, seja na qualidade técnica e de programação. O que falta no Brasil é um número maior de emissoras como tem nos EUA. Nós temos emissoras no Rio e em São Paulo, Interior temos algumas retransmissoras com alguma coisa de programação local, como a TV Tem, o que está melhorando. Mas nos EUA, qualquer cidade pequena tem seu canal de televisão com programação local, entra em rede só para um jornal por dia.
JC - E a qualidade do jornalismo de lá?
Duran - Eu gosto mais do jornalismo brasileiro. Não gosto dos jornais americanos, do estilo quadrado deles, é conservador demais. Acho chato os textos que eles fazem.
JC - Como você consegue transitar entre a notícia pesada e o que é leve? Recentemente você fez uma série sobre teatro...
Duran - Eu faço muito Carnaval no Rio. Eu passo sete meses do ano fora da programação normal, fora do dia-a-dia. Aliás, isso é uma coisa legal. Eu sou um paulista, do Interior, que é o principal repórter do Carnaval da TV Globo no Rio, que é o lugar do Carnaval. Faço um programa no domingo de manhã, que se chama “Globo Comunidade”, que é sobre Carnaval, e os drops “Diz no Pé”. Em agosto a gente já começa a cobertura. É muito show! Eu vou em todas as escolas. Estou apaixonado pelo Carnaval, pelas pessoas, pelas histórias. Eu vou todo dia a uma quadra e até quando vou a uma feijoada não consigo parar de observar, captar informação, conhecer gente que vai me ajudar depois.
JC - Mas antes você não tinha ligação alguma com o Carnaval?
Duran - Nada, nada. Imagina. Eu fui uma vez à Marquês de Sapucaí. Me disseram: “Duran, estão precisando de você lá na avenida para fazer um flash.” Fui lá, fiz o boletim que tinha que fazer e não me lembro exatamente sobre o quê. Aí eles responderam: “Tá bom, obrigado.” “Tá bom nada, eu vou ficar aqui! Não vou mais embora não.” E fiquei.
JC - Além do seu texto, você se orgulha da sua voz? Você pode não estar vendo TV, mas sabe que é o Duran?
Duran – As pessoas me reconhecem muito pela voz. Em táxi, acontece muito, a pessoa nunca me vi, mas conhece a minha voz. Um dia comecei a me questionar. A minha voz é marcante, eu sei disso. Mas as pessoas nunca dizem que a minha voz é bonita. Já fiquei muito tempo encucado, com esse negócio. Hoje não. A minha voz e o meu texto mais solto se complementam.
JC - E qual a próxima jogada do Duran?
Duran - Eu quero trabalhar muito. Vou voltar de férias e começar a mexer com o Carnaval, que virou uma paixão. Tenho até uma camisa para cada escola, com calça branca e sapato branco para fazer matéria. Estou colecionando discos de samba, gravando muita coisa e se der tempo vou escrever um livro sobre algum ponto dos bastidores do Carnaval, pessoas anônimas, parcerias inusitadas e histórias que só as rodas de samba do Rio podem lhe pautar.