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Festas juninas resgatam calor humano

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

Pense rápido: para quantas festas juninas você foi convidado? Quantas festas coincidiram a data? Você chegou a comparecer em mais de uma comemoração em um único dia? Qual o lugar mais inusitado que você encontrou pipoca, quentão e gente com chapéu de palha?

Há pelo menos dois anos é impossível que alguém não tenha respondido afirmativamente a pelo menos duas das questões acima.

As festas juninas tem se multiplicado, já ultrapassaram até o mês que lhes dá nome e avançaram para julho, que reserva festas julinas com a mesma animação e temática.

As festas, que nasceram nas fazendas e nas paróquias dos santos do mês - Antônio, João e Pedro-, com a urbanização faziam parte do calendário das escolas. Hoje, os eventos juninos ganharam clubes recreativos, náuticos (isso mesmo) e de serviço, ruas e bairros inteiros e até estabelecimentos comerciais dos mais inusitados como salões de beleza. Semana passada, em Bauru, até uma festa de casamento acabou em quadrilha com direito a adereços fornecidos pelo buffet. No início do mês, uma empresa urbanismo entregou um condomínio com quentão, rojão e fogueira no lugar de um frio coquetel.

A psicóloga Sandra Calais, que dá aulas na área de psicologia comportamental na Universidade Estadual Paulista (Unesp), aponta que não existe nenhum dado científico sobre o fenômeno das festas juninas. Mas esse crescimento pode se justificar porque as festas não têm dono, não são aniversário de ninguém, casamento, bodas, apenas marcam um mês. Atualmente, dois.

“Ela tem todo esse apelo porque não demanda formalidade, você pode ir com a roupa que está. Não requer muito tempo, pois em minutos você passa num supermercado e compra um pacote de pé-de-moleque, um bolo, prepara um vinho quente rapidinho. É uma festa despretenciosa, que não demanda quase nada de dinheiro e tempo, onde tudo é fácil de fazer e estimula o contato social, que é uma coisa que os brasileiros gostam e muito. Diferente de um casamento, onde temos toda uma formalidade, a preocupação com roupa, cabeleireiro etc. Na festa junina o único compromisso é curtir”, analisa.

Como na correria do cotidiano as pessoas não têm tanto tempo para se encontrar, a festa junina é um dos eventos sociais mais integrativos do calendário.

“A festa junina é uma festa sem compromisso e eu acho que é disso que as pessoas precisam, pois elas já têm compromissos demais e, por ser assim, você acaba até comendo sem culpa as iguarias da culinária caipira, que normalmente não comemos todo dia e que são uma delícia. Você não precisa de lugar para fazer uma festa dessa. Pode ser no escritório, na rua, no quintal. Você conhece pessoas novas, conversa com os vizinhos, revê amigos. Isso é uma coisa bárbara nos dias de hoje, sem falar do aspecto cultural e beneficente”, aponta Sandra.

Ajuda ao próximo

Inúmeras foram as festas beneficentes realizadas durante o mês que terminou. Até escolas de computação, como a Microlins, abriram suas portas para ajudar ao próximo. Funcionários e alunos organizaram a festa e reverteram a renda para entidades.

A Casa da Sopa, na Vila Dutra, por exemplo, fechou várias quadras do bairro e montou uma grande festa para divertir a comunidade e manter a instituição.

O setor de marketing do Bauru Shopping também resolveu fazer uso da data para oferecer atrativos a seus clientes e fazer simultaneamente ação filantrópica. Aos sábados e domingos de junho e julho, entidades montam barracas típicas e durante toda a semana uma equipe de recreacionistas da escola infantil Criarte caracteriza, diverte e aplica atividades lúdicas para as crianças com temática caipira.

Segundo os organizadores, a todo momento a praça central, que se transformou em arraial, está movimentada.

Fora do comum

Durante o final de semana de São João, o cabeleireiro Júlio Dinardi e sua equipe caracterizaram-se de caipira, montaram uma mesa de comidas e bebidas típicas e colocaram forró como som ambiente para atender as clientes do salão de beleza.

“Foi uma maneira que achamos para mudar o ambiente e confraternizar com nossas clientes. As festas juninas nos fazem voltar à infância e muita gente comentou que se soubesse, também teria vindo a caráter para o salão”, comemora Dinardi, que já incorporou a data ao calendário da beleza.

As empresas de urbanismo e construtoras costumam fazer uma festa no lançamento de um loteamento, marcando o início das vendas, e outra festa para entregar as obras. Este é um momento de realização pessoal para quem investiu em um imóvel e merece uma comemoração à altura.

“Precisávamos valorizar a entrega antecipada do Villagio II, da Aiello Urbanismo, e comunicar os clientes da surpresa - entrega das obras era prevista para final de junho e foi antecipada para maio. Como o frio neste ano começou cedo e como todo mundo que a gente conhece ama uma típica festa junina, pensamos com o departamento de marketing: por que não fazer uma festa junina? Foi a maneira que encontramos para reforçar a entrega antecipada, valorizar a cultura regional e oferecer uma surpresa extra aos nossos clientes. Nada contra festas importadas de outras culturas, mas na nossa opinião, nada substitui uma festa tipicamente interiorana, com direito a correio elegante e toda a culinária típica, que valoriza as raízes da cultura local e deixa todos muito à vontade. “Observe bem, os brasileiros de qualquer classe social se sentem muito confortáveis em uma festa junina, onde preocupações exageradas com formalidades ficam de fora e as pessoas se relacionam com mais espontaneidade”, aponta o publicitário Helber Nardo, da Aero Comunicação, um dos organizadores da festa.

Recém-inaugurado, o Supermercado Visão também fez festa na rua para os vizinhos, que compareceram a caráter.

Até nas baladas noturnas as festas juninas ganharam espaço. Há seis anos, o empresário João Cabreira descobriu que a competição com os arraiás é injusta e resolveu fazer uma festa típica em suas boates.

“A moçada curte a festa atípica e eclética, com a casa decorada, bebida típica e forró. Eles não vão caracterizados, mas todo o pessoal da casa trabalha a caráter e curte a noite diferente. Eu sempre fui bairrista e acho festa junina muito legal, tem comida legal e uma animação que é só dela”, aponta Cabreira.

Ele concorda que há três anos as festas tomaram uma dimensão muito maior e confessa que junho é o pior mês para as boates e danceterias, pois as inúmeras festas roubam o público mesmo.

Prova disso, é que no começo das semana os ingressos para a festa de sexta-feira no Bangalô estavam praticamente esgotados.

Mas independente do aspecto comercial, João Cabreira guarda duas fortes lembranças dos festejos caipiras: ter queimado a mão com bombinhas depois de bem crescido e dos pais o levando para os ensaios da quadrilha do bairro quando era criança. “Isso é coisa que a gente não esquece e tem saudade”.

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