Tribuna do Leitor

Que país foi este?


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(Sou homem da lei... da lei do mais forte... de um povo sem rei... do “olho por olho”... do “dente por dente”... sou homem da terra... dos homens cegos... de bocas banguelas - Falcão)

Este já foi um País de grandes homens... Um país em que Afonso Arinos e Evandro Lins e Silva foram mais que advogados - foram doutores da justiça, defendendo outros homens... Num tempo em que os que detinham o poder, desconheciam a palavra humanidade, esses grandes homens, mais que afrontarem ditaduras, sustentaram erguida a fronte da Justiça, mesmo quando esta, estava prostrada de joelhos... Perseguidos, por verem a advocacia não como um negócio, mas como uma parte da alma, resistiam, deixando-nos um exemplo de dignidade e cidadania.

Hoje, a memória destes homens assemelha-se mais a um conto de fadas: “Era uma vez, há muito tempo, em um país distante... " Um país em que a Ética e a Justiça se restringem à retórica dos simpósios, debates e papéis, pois não habitam mais o coração dos homens... ao contrário, se subordinam aos interesses...

Vemos profissionais do direito juntarem sua voz a dos poderosos, minando a luta dos mais desprotegidos - os trabalhadores - ao invés de servirem de vetor para a população, contra os homens públicos que lhe impingem serviços morosos, infringem a lei e desonram o País... Tais profissionais preferem caminho mais seguro... afinal, não é para qualquer um o caminho escolhido por Afonso Arinos e Evandro Lins e Silva... um caminho de pedras e espinhos... o caminho da honra...

Os tempos mudaram... Perdeu-se o senso do justo... Mais que cega, a Justiça encontra-se, hoje, surda e muda. Ao vermos os direitos dos trabalhadores vilipendiados e a combatividade com que são defendidos criminosos, chegamos à triste conclusão de que é preciso estar em uma cela para termos reconhecidos e defendidos nossos direitos humanos... Nosso País foi transformado, através da nossa omissão do dia-a-dia, em um rascunho do passado... Um País que só reconhece três tipos de cidadãos: os que nascem ricos, os que se elegem ao poder político e os que se tornam “autoridades da lei”, seja na esfera pública, seja na esfera privada.

Nos tornamos um arremedo de democracia... Achamos que a Justiça é essencial, mas que os direitos podem ser esquecidos... Vivemos em um mundo de faz de conta, onde governantes podem descumprir a lei e dispor do dinheiro do povo, como se fosse seu, negando-lhes serviços públicos básicos com a qualidade necessária... Um mundo de filas intermináveis, de “burocracia”, de serviços lentos e ineficazes... Vivemos a ilusão de que chegará um dia, um cavaleiro de armadura branca para salvar a todos nós de nós mesmos... E diante de tanto descalabro, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), quando não se cala, fala por outras vozes que não as belas vozes do seu passado... Não se consegue ver mais por entre ternos, como os que um dia vestiram Afonso Arinos, e entre togas que um dia enobreceram Evandro Lins e Silva, uma armadura gasta, mas honrada... uma armadura onde se lê gravado: “Não há meu, seu, ou interesse “deles”; entre nós, apenas a defesa intransigente da Justiça, que mais que um sonho, é meu segundo nome, minha própria nação”.

Luciana Dias Duarte - presidente da Associação dos Funcionários do Poder Judiciário de Bauru. RG: 19.197.245

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