Cultura

Artigo: Nas ondas do mar


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O mar, porção maior do globo terrestre, mesmo com suas águas salgadas tem diversos significados: é doce, feminino, cruel, caminho da esperança para os crédulos, curtição e lazer. Nele habitam serpentes e dragões...

Os baianos Jorge Amado e Dorival Caymmi cantaram que é doce morrer no mar, ele “quando quebra na praia... é bonito... é bonito”. Mas cuidado! “Pescador quando sai, nunca sabe se volta, nunca sabe se fica”.

No mar ocorreram catástrofes, das quais a mais grandiosa talvez seja a do Titanic. Asimov previu a maior de todas: o descongelamento das calotas polares e o desaparecimento das cidades litorâneas, fato que não aconteceu... ainda.

Mais trágico, Vinicius de Moraes conta a desdita da moça de Miramar: “Silêncio da madrugada/ No Edifício Miramar... sentada em frente à janela/ Nua, morta, deslumbrada/ Uma moça mira o mar... De noite é a lua quem ama/ A moça de Miramar/ Enquanto o mar tece a trama/ Desse conúbio lunar...”.

Para os franceses o mar é feminino: la mer. Cancioneiros e poetas associam suas ondas com as formas da mulher. O chileno Pablo Neruda não titubeou em confrontá-lo com a mulher “... da onda, uma onda e outra onda... verde mar, verde frio, ramo verde... eu não escolhi senão uma só onda: a onda indivisível do seu corpo...”.

Masculino no Brasil, ele seduziu Copacabana. Inspirado em João de Barro e Alberto Ribeiro, Dick Farney cantou: “Copacabana, o mar/ eterno cantor/ ao te beijar/ ficou perdido de amor”.

O mar detém mistérios. Guarda em suas entranhas histórias terríveis. Foi por ele que os nautas portugueses aqui aportaram. Basta conferir Fernando Pessoa sobre o “Mar português”: “E ao imenso e possível oceano/ Ensinam estas Quinas que aqui vês/ Que o mar com fim será grego ou romano/ O mar sem fim é português... O mar salgado, quando de teu sal/ São lágrimas de Portugal por te cruzarmos, quantas mães choram,/ Quantos filhos em vão rezam!/ Quantas noivas ficam por casar/ Para que fosse nosso, ó mar!? Valeu a pena? Tudo vale a pena se alma não é pequena...”.

O mar oculta as serpentes e os dragões que tanto assustaram esses navegantes, mas os mineiros João Bosco e Aldir Blanc amenizaram seu horror, transformando-o em feiticeiro: “há muito tempo/ nas águas da Guanabara/ o dragão do mar reapareceu/ na figura de um bravo feiticeiro/ a quem a história não esqueceu/ conhecido como o navegante negro...”.

O mar inspira religiosidade. No início do século passado, índios Guarani, vindos de Iguatemi, de passagem por nossa região, rumavam em direção ao mar na procura da “Terra do Bem”.

Mas o mar, suas ondas e praias estimulam o lazer. Guarujás, ilhas do Mel, Copacabanas e Itapoãs, atraem aqueles que o amam, trazendo “um velho calção de banho/ um dia pra vadiar/ um mar que não tem tamanho/ um arco-íris no ar,” como lembram Vinicius e Toquinho.

O autor, Irineu Azevedo Bastos, é historiador, escritor e colaborador do Ju Machado Escritório de Arte.

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