Existem vários tipos de academia. Procuro freqüentar as que cultivam as letras, o pensamento e o “espírito”, mas também não desprezo aquelas que tratam do corpo. Sem preconceitos. Cuido da mente e também da forma física porque corpo ruim não deixa a cabeça trabalhar direito. Um pouco também porque a imortalidade se restringe à obra do acadêmico. Ainda assim se for muito boa para atravessar os séculos. Se vamos mais aos saraus do corpo do que à coalhada do Munir Zalaf na Academia Bauruense de Letras é justamente porque nos colocamos na condição de mortais, de corpo e prosa.
Na academia das letras há sempre o sujeito que vive falando do livro que um dia vai escrever, tal como atletas das academias do corpo que prometem, um dia, acabar com aquela barriguinha de chope. E há os que realmente produzem a sua obra em prosa ou versos; como também são reais aqueles que levam a sério o culto ao corpo.
Honrado com um convite para escrever uma das orelhas do livro do trovador e sonetista Antonio Valentim Rufatto, cheguei a pensar que seria mais uma daquelas intenções frustradas. Eis que na última quarta-feira lá estava ele na Academia com o seu “Acalento” acabado de sair do forno, distribuindo exemplares para os colegas. Além do livro, brindou a cada um de nós com uma dedicatória em forma de trova exclusiva. Um grande presente.
Escrevi na orelha que “em tempo de violência, tragédias e de raciocínios cartesianos sobre lógicas de mercado, a poesia continua a trabalhar pela harmonia universal”. Rufato prova com o seu talento que sempre haverá lugar para o lirismo: onde existir amor e sofrimento, instantes de alegria ou de lamento, haverá sempre um poeta, com certeza. E, no entanto, dizem que a poesia não interessa a ninguém, que os poetas não têm nada que fazer nesta cruel sociedade eletronicamente bilionária e humanamente miserável.
Minha cabeça tenta entender essa coisa intrigante. Se os editores dizem que poesia não vende, que poesia não rende, que ninguém compra poesia, que poesia não se negocia nas bolsas de valores, então, senhores do Conselho, dizei-me vós, por que cresce cada vez mais o número de poetas sobre a terra? Se a poesia não serve para nada, e se “lutar com palavras é a luta mais vã”, por que milhões de poetas recomeçam nessa luta “mal rompe a manhã”? E o caso da poesia é o mesmo da arte em geral. A poesia, como a arte, não morre nunca, porque mais que um gênero literário, é uma “função” da mente humana. Ela dá voz a algo que nenhuma outra arte ou forma de expressão pode dizer por ela. Por isto cantam, por isto escrevem, por isto pegam seu dinheirinho e editam livros ou saem mundo afora falando de seus poemas. E ao contrário das outras artes, que se transformaram predominantemente em negócio, a poesia vive numa situação ambígua: porque a palavra do poeta não se converteu em commodity e produto descartável que segue a moda e o mercado. Ela guarda uma autenticidade e uma independência que a singularizam. Como escreveu minha colega de academia e de orelha, Isolina Bresolin Vianna (saúde, madrinha!) “a mais nobre e difícil missão do poeta é tornar o ser humano melhor, levando-o para mais perto de Deus, que é onde estão os verdadeiros poetas”. E a poesia também faz bem para o autor, em primeiro lugar, segundo nos ensina Rufato: “Quando a tristeza me aflora,/ na luta do dia a dia,/eu mando a malvada embora/cultivando a poesia!” (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)