Tribuna do Leitor

Teatro às escuras


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Sendo grande apreciadora e freqüentadora de teatro, sexta-feira, dia 16, fui ao Teatro Municipal assistir ao belo espetáculo “Personalíssima”, que contava a história da grande cantora Isaurinha Garcia, estrelado por Rosamaria Murtinho e excelente elenco de mais dez atores. Logo no começo da história, menos de três minutos de iniciada a peça, acabou a energia e as luzes de emergência foram acionadas automaticamente e todas as pessoas que estavam presentes ficaram perplexas, como eu, ao sentir que algo estranho havia acontecido naquele momento. O ator estava falando sua frase e ia continuar, Rosamaria Murtinho, com sua delicadeza e vasta experiência, solicitou ao ator a interrupção de sua fala, porque tinha ocorrido um blecaute. Nos pediu um tempo até que fosse resolvido o impasse. Fecham-se as cortinas, a platéia fica estarrecida com a situação, depois de algum tempo o elenco sai detrás das cortinas e lamenta muito o ocorrido, se desculpa (eles não tinham culpa nenhuma) e solicita que esperemos um pouco, porque, segundo informações, houve uma queda de energia. Começam a conversar com a platéia, um dos atores pega o violão e entoa uma música do Djavan, a platéia acompanha, os atores são apresentados. Rosamaria, muito constrangida, se senta ali na frente, juntamente com os demais atores, com o intuito de entreter a platéia, que, a esta altura, não tinha onde botar a cara, de tanta vergonha e tristeza que sentia com o ocorrido.

A atriz começou a conversar com o público, contando um pouco da história da Isaurinha.

A luz voltou, não sei depois de quanto tempo, a peça seguiu em frente, de onde tinha parado. Espetáculo lindo, preparado com muito carinho, várias roupas, cenário perfeito, com muitos móveis, trilha sonora, para retratar as diversas fases da Isaurinha, atores concentradíssimos, apesar do incidente. Acaba o primeiro ato e é anunciado um intervalo de 10 minutos. Começa o segundo ato, e pouco tempo depois, apagam-se as luzes novamente. Comoção geral. Fecham-se as cortinas, o elenco espera por algum tempo atrás delas, a platéia atônita e querendo uma solução (que não vem). Depois de bastante tempo, não sei quanto, o elenco, novamente, vem à frente do palco. Infelizmente não apareceu nenhum responsável pelo teatro, nenhum gerente, nada, para dar maiores satisfações a todos. O elenco pede desculpas, e pensa em encerrar o espetáculo, pois acha que seria impossível continuar sem o apoio do som. A platéia se desculpa, aplaude o elenco em pé, e este, por grande consideração ao público, resolve dar andamento à peça. As luzes são improvisadas por funcionários do teatro.

A grande atriz interpreta as canções, à capela, ou seja, sem nenhum acompanhamento musical (devido à ausência da energia), e todo o elenco contribui para que o espetáculo prossiga, fazendo até as vezes da sonoplastia, quando necessário. A luz não volta mesmo. Belíssimo espetáculo, atores de fibra, platéia sem graça e com muita vergonha, ao ver o imenso desgaste do elenco para levar a peça até o fim, selando, dessa maneira, seu compromisso com o público. Infelizmente um espetáculo de altíssima qualidade, tão carinhosamente preparado, foi dramaticamente mutilado. Ao fim da apresentação, na reverência dos atores, as lágrimas estão presentes em todos os olhos, da platéia e dos atores. Rosamaria Murtinho, aos prantos, quase nem consegue agradecer. Todos saem, na penumbra, com uma ferida no coração. (Vera Regina Agnelli).

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