Economia & Negócios

Dinheiro de plástico chega às classes C e D

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 6 min

Há alguns anos, ter cartão de crédito era sinal de estatus. Apenas pessoas que tinham um bom poder aquisitivo podiam usufruir desse pequeno pedaço de plástico repleto de crédito.

No entanto, nos últimos cinco anos houve um crescimento significativo do cartão de crédito entre pessoas das classes menos abastadas.

Para o economista Wagner Ismanhoto, isso merece um alerta de perigo. “Para quem ganha pouco, o cartão é um suicídio”, diz.

Segundo ele, há pessoas que recebem um salário mínimo e que portam um cartão com limite de R$ 150,00. “É muito complicado para essa pessoa administrar esse crédito sem se enrolar nas altas taxas de juros”, destaca.

Pensando nisso, ele até solicitou ao banco que não oferecesse cartão de crédito aos funcionários da empresa da qual é consultor. “É uma maneira de prevenir o endividamento.”

Segundo ele, o principal perigo do cartão de crédito é a “dívida eterna”. “Depois que entra no rotativo, a pessoa dificilmente consegue quitar a fatura”, diz.

Ismanhoto salienta que o cartão de crédito é um instrumento interessante, mas que o povo, no geral, não está disciplinado para usá-lo.

Já o coordenador do Procon em Bauru, Sílvio Orti, salienta que trata-se de um instrumento que ilude o consumidor menos preparado, fazendo-o crer que tem condições de gastar, mas na realidade, envolvendo-o numa armadilha.

A auxiliar de serviços gerais Maria (nome fictício, a pedido da entrevistada) é uma das pessoas que caíram na cilada. Ela conta que tinha o cartão de crédito, mas que nunca havia desbloqueado-o. “Eu só usava o de débito.”

Certo dia, estava fazendo compras no Centro da cidade quando foi abordada por um vendedor de assinatura de revistas. “Ele pediu para ver meu cartão e, sem me avisar nada, passou na maquininha, me vendendo uma assinatura que eu nem sequer requisitei”, lembra.

Na hora, ela aceitou a aquisição forçada. Mas com isso, ativou seu cartão de crédito, que passou a cobrar-lhe anuidade. “Já que tinha desbloqueado, eu resolvi usar. Foi uma grande besteira”, salienta.

Sem perceber, ela se viu envolvida numa grande dívida e sem condições para quitá-la. Quando conseguiu juntar dinheiro, pagou toda a fatura e, com a ajuda de uma tesoura, picou o cartão em pedacinhos. “Eu estava nervosa e resolvi me livrar desse mal.”

O problema é que, mesmo sem possuir o cartão, ela continua pagando anuidade. “Eu já tentei várias vezes cancelar o crédito, mas eles não me atendem. Vou ter de ir no Procon”, avisa.

O coordenador do Procon, alerta que não se deve, de maneira alguma, mostrar o cartão para ninguém. “Ao fazer isso, a pessoa disponibiliza a sua senha e acaba comprando sem saber”, destaca.

Quanto à dificuldade de Maria em cancelar o crédito, Orti diz, que realmente as negociações não são fáceis. “Se a pessoa tiver condições de pagar um advogado para orientá-la, é bom fazê-lo, pois as empresas geralmente dificultam ao máximo o cancelamento”, frisa.

A presidente da Associação Nacional dos Usuários de Cartões de Crédito (Anucc), Kássia Correia, salienta que as empresas de cartão não respeitam as relações de consumo, por isso, o número de clientes com problemas tem crescido tanto. “A pessoa se ilude com o apelo da facilidade de crédito e deixa de se informar sobre a maneira mais adequada de utilizar esse benefício”, destaca.

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Círculo vicioso

Um dos pecados do cartão de crédito é se perder em meio à sua oferta. Ter várias unidades desse tipo de instrumento é muito fácil, já que eles chegam até o consumidor através de vários canais. O complicado é administrar o crédito de maneira a não se envolver em dívida.

A cozinheira Ana (nome fictício) está sem emprego no momento mas, mesmo assim, possui cinco cartões de crédito.

Há cerca de dois anos, ela teve problemas financeiros por conta de um acidente e da separação conjugal e, dessa maneira, viu suas finanças ficarem fora de controle. Para saldar suas dívidas, endividou-se ainda mais na fatura do cartão. “Eu nunca ficava sem pagar nada, mas tirava de um cartão para cobrir o outro”, conta.

Ela só conseguiu colocar “a casa em ordem” depois de muita negociação. “Como estava acidentada, consegui com algumas administradoras reduzir o valor da dívida em até 60%”, salienta.

Hoje ela mantém os mesmos cinco cartões, mas já não os usa como antigamente. “Eles facilitam a vida, mas é preciso saber usar”, ressalta.

O economista Wagner Ismanhoto explica que o usuário de cartão de crédito deve sempre ter em mente que o cartão só adia o prazo de pagamento, mas que a dívida terá de ser paga na data do vencimento.

“Ao optar pelo crédito rotativo, a pessoa entra numa ciranda perigosa e complicada de sair”, explica.

Por isso, ele recomenda que o usuário nunca pague só parte do débito no vencimento e sempre mantenha em dia sua fatura. “É a maneira correta de usar o cartão.”

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Risco calculado

O principal complicador no uso do cartão de crédito são os juros elevados cobrados pelas administradoras. Quem entra no crédito rotativo, submete-se a uma taxa que varia entre 10% e 13%, dependendo da empresa.

O economista Wagner Ismanhoto explica que, mesmo pesquisando antes de adquirir um cartão, o consumidor não tem como se livrar desse “fantasma”. “As taxas são variáveis. Em um mês, a empresa cobra um valor x; no outro, ela pode aumentar essa taxa. Não tem como prever.”

Para exemplificar como esse instrumento atinge o bolso do consumidor, Silvio Orti, coordenador do Procon, explica que, se a pessoa não tem como quitar toda a fatura e paga somente o mínimo, ela entra no crédito rotativo. Sobre a sua dívida, a empresa joga a taxa de juros, que pode ser de 10% a 13%, mais alguns outros encargos. Com isso, a dívida sobe novamente, chegando a atingir praticamente o mesmo patamar anterior, ou seja, “na realidade, a pessoa só quitou os juros, a dívida continua intacta”, explica Orti

O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), Jair Scalco, destaca que as administradoras sempre são acusadas de cobrar juros muito altos, mas elas fazem isso por conta do risco do negócio.

“Calcula-se o valor dos juros de acordo com o risco que a operação oferece”, diz.

Para enfatizar, ele explica a diferença entre os juros rotativos e parcelados. “O parcelado, que gira em torno de 4% ao mês, é aquele em que a pessoa avalia as suas condições de pagamento e fecha o negócio com base no valor que pode pagar por mês. É o que a maioria dos crediários faz. No caso do rotativo, funciona assim: o consumidor compra e se dispõe a pagar em determinada data.

Quando chega o vencimento, ele não tem dinheiro e parcela a dívida, ou seja, é uma operação de risco. Por isso, os juros são mais altos”, diz.

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