Pesca & Lazer

História de Pescador: Pescaria e vida


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“Esta é a história do companheiro pescador Roberto Carlos, a qual eu gostei muito e achei que eu deveria compartilhá-la com todos os amigos pescadores de Bauru e região.

Quando eu tinha 13 anos, em uma pescaria com o meu pai, ele pegou um bagre bem grande. Demorou um tempão para tirá-lo da água. A vara de bambu estralava como se fosse quebrar, mas por fim ele conseguiu tirá-lo da água. E como era de seu costume antes de soltar o bicho ele prendia uma linha de nylon azul-escura na nadadeira dorsal e dava um nó característico que acho que só ele sabia fazer. Ficava parecendo artesanato, formando uma argola trabalhada.

Após a soltura do bicho ele me disse que ‘se um dia eu capturasse aquele peixe isso me traria muita alegria’. Quando lhe perguntei porque, apenas sorriu e não disse nada. Isso me deixou curioso, mas logo em seguida entraram outros peixes e acabamos mudando de assunto.

O tempo passou e meu pai agora pesca em outra dimensão. Vítima de uma doença que tira de nós quem mais queremos por perto. Bem, mas a vida continuou.

Hoje estou com 42 anos e continuo pescando. Não sei se já posso dizer que saiba fazê-lo bem, pelo menos me divirto muito e tenho muito prazer. Há uns dias fui pescar com uns amigos no Interior de São Paulo e logo que cheguei no lugar achei muito familiar, como se eu já tivesse estado lá antes, mas como isso acontece muito com as pessoas, não dei importância e tratei logo de me acomodar e jogar a linha na água.

Passamos a manhã inteira sem pegar nada e o sol rachando em cima de todos. O pessoal começou a desanimar e resolveram subir para o almoço, mas eu fiquei para insistir com um danado que me roubava isca e não caia no anzol, provavelmente uma daquelas tilápias marotas. Logo que eles subiram, minha vara quase foi para água, pois estava distraído. Recoloquei a isca e lá fiquei esperando outra puxada.

Uns 20 minutos depois, um dos meus colegas voltou e me encontrou já meio roxo de tanto esforço, com um dos pés dentro da lagoa, a vara completamente curvada, com a ponta quase tocando a água.

Mais do que depressa ele se aproximou e veio dizendo para que tivesse calma, não desse ponta de vara, tentando me ajudar da maneira que dava. E entre o falatório me veio a cabeça a cena muito parecida do meu pai com o bagre, as coisas que ele me dizia. Ficaram marcados em minha vida até hoje e tem me ajudado a superar obstáculos. Por fim, lembrei o que ele dissera sobre pegar aquele bagre e sentir muita alegria.

Quando consegui tirar o meu peixe da água, parecia um sonho. Um belo bagre com uns 70 cm e quase oito quilos, pesados depois da captura. Enquanto eu me recuperava rodeado pelos meus amigos que voltaram do almoço, um deles falou algo sobre o peixe estar marcado. Na mesma hora muitas coisas se passaram em minha cabeça e como que por mágica lembrei-me daquele local. Imediatamente fui verificar a tal marca e, por mais que eu tentasse não acreditar, era o mesmo bagre que meu pai havia deixado sua marca assim mesmo como deixou na minha vida.

Então, pude entender, como se ele houvesse profetizado aquele momento, o que disse a respeito de quando eu capturasse aquele peixe, sentiria muita alegria. Agora eu sabia o que ele quis dizer.

Antes de soltar o bruto resolvi complementar aquele sinal no dorso do bagre simbolizando a esperança de um dia meu filho também sentir o mesmo que eu estava sentindo. Acrescentei apenas um nó no que já havia com uma linha diferente.

Meu pai tinha razão sobre ficar muito feliz, mas não só pela ação do peixe. Na verdade o que me trouxe muito mais alegria foi perceber que ele ainda está vivo dentro de mim.”

André Luiz Ramos é pescador de fim de semana e contador de histórias

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