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Aprecie com moderação


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Chico Marceneiro é desses artesãos em extinção. A gente não encontra mais ninguém disposto a fazer pequenos reparos em casa. Ferragens que enferrujam, gavetas que despencam e a goteira que teima em aparecer com a chuva mais forte são defeitos próprios da casa que vai envelhecendo e que não há quem arrume. Se eu não tivesse o Chico Marceneiro lá na Bela Vista, teria que substituir o velho pelo novo, e com desvantagem porque não se faz mais móveis como antigamente.

Os norte-americanos decidiram há muito substituir essa mão-de-obra escassa e cara. Sabe como? Aprendendo a fazer em casa. Toda dona-de-casa nos EUA sabe trocar o papel da parede. Os homens fazem cursos rápidos para se tornarem encanadores e eletricistas caseiros.

Além da gratidão imensa que eu tributo ao meu Chico-Quebra-Galho – como eu o chamo – adoro a sua mente inventiva e a capacidade que tem de observar coisas banais por ângulos inusitados. Outro dia consegui convencê-lo a dar uma guaribada no armário embutido. Entre uma martelada e outra disse que achava um contra-senso as publicidades de marcas de cerveja. Uma cerveja é “nova”, outra é “boa”, outra é do “nã, nã, nã” e no fim recomendam: “aprecie com moderação”. Se é gostosa, desce redondo, todo mundo que toma é bonito e ninguém tem barriga de cerveja, apreciar com moderação soa como piada para o Chico.

Dou-lhe razão. Embriagados de álcool e liberdade ninguém vai moderar. Moderar é “conter nos limites justos e convenientes”, é “qualidade que consiste em evitar excessos”, diz o Aurélio. Como diz aquela música, “depois do terceiro ou quarto copo não me responsabilizo, nem por mim nem por ninguém”. As fábricas de cervejas não querem que ninguém “aprecie com moderação”. Tanto é verdade que seus anúncios estimulam ao consumo.

“Aprecie com moderação” tornou-se uma enganação que não convence a ninguém. Da mesma forma aquelas advertências sobre as conseqüências do fumo. As fotos horrendas nas carteiras de cigarro banalizaram ainda mais o que deveria ser uma contra-propaganda. O fumante chega na tabacaria e diz preferir o que dá câncer em vez daquele que deixa broxa.

Claro que isso faz parte da alma do brasileiro que ri da própria desgraça. Na verdade moderação é tudo na vida. Os publicitários contratados pelas fábricas de cerveja é que não têm a menor vontade de conscientizar os consumidores à puxarem o breque de mão. Caso contrário diriam: “seja senhor do seu prazer bebendo com moderação”. O prazer vivido de forma consciente, sem anestesia das drogas, tem sabor de subjetividade. É a arte de ter prazer sendo senhor dos seus prazeres em vez de escravo. Quando se é traído pela qualidade tende-se a buscar a desforra na quantidade. Já não se saboreia, consome-se.

Meu saudoso amigo Sampainho, que hoje navega nos céus entre brahmas e brumas e antárcticas espumas, dizia que “cerveja é para ser degustada, como tudo na vida”. Neste líquido cenário da vida moderna há no ser humano vontade do intenso, tendência ao gosto explosivo, vontade do exagero. Nada de anormal mas, se esse ímpeto não puder ser refreado quem está sóbrio vai se aborrecer. Nada pior do que um bêbado chato. Por isso corrijo o slogan: “seja feliz sem chatear o próximo”. Saúde!

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.

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