O presidente da República, político experiente e intuitivo, teve o seu dia de desabafo. Ao dar posse ao novo diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Mauro Marcelo de Lima e Silva, Lula criticou o que chamou de “denuncismo” da imprensa e vazamento de informações dentro do governo.
Diante de uma platéia formada por funcionários da Abin, o presidente afirmou que, no Brasil, figuras públicas de todas as áreas são difamadas pela imprensa por causa de informações precipitadas. “Têm o nome achincalhado pelos quatro cantos do País e, depois, não se prova nada e ninguém pede desculpa pelo estrago feito à imagem da pessoa, da família e do Estado brasileiro”, afirmou.
Ignorando que o PT na oposição várias vezes acusou adversários políticos sem apresentar provas, o presidente afirmou que “uma denúncia só pode se tornar pública quando estiver embasada em fatos verdadeiros e totalmente comprovados, senão isso passa a ser difamação”. O desabafo do presidente contra as arapongas do poder e a suposta leviandade da mídia, deveria, no entanto, soar como um alarme em todas as redações.
Um perigo, efetivamente, ronda o trabalho da imprensa: o vírus da competição e a patologia da precipitação. O bom jornalismo é aquele que tem a coragem de esquecer a concorrência e opta pela notícia bem apurada. Os riscos de instrumentalização da mídia, sobretudo em época eleitoral, são evidentes. Por isso, as denúncias e os indícios devem ser escrupulosamente comprovados.
Denúncias têm brotado como cogumelos. Punição, no entanto, é produto escasso. Entre muitas causas da impunidade que decepciona a sociedade, as mais freqüentes têm sido denúncias malfeitas, com base em inquéritos amadorísticos e, sobretudo, a exagerada publicidade em torno de fatos que, por isso, acabam rigorosamente nos fornos das pizzarias de sempre. A síndrome do denuncismo é uma ameaça ao jornalismo de qualidade. Assistimos, freqüentemente, a uma guerra de audiência que passou a ser medida pelo número de dossiês publicados nos jornais e revistas ou veiculados nos telejornais. Sobram acusações, mas falta análise da procedência e da qualidade da denúncia.
Declarações de estelionatários são suficientes para produzir chamadas de capa. Estamos mergulhados numa perigosa competição. Se não dermos, raciocinamos com a lógica do mercado, a concorrência pode dar. O resultado dessa equação é a derrota da informação, o desserviço ao cidadão e, freqüentemente, um tiro certo na honra alheia.
É importante que todos os que temos uma parcela de responsabilidade na formação da opinião pública revigoremos uma verdade redonda: a responsabilidade ética (que não é neutralidade) é o melhor investimento. O denuncismo deve ser combatido. Mas o receio de cometer injustiças não pode ser um álibi para covardias editoriais. A solução, embora complexa, não é tão difícil. Basta combinar o ímpeto do jovem repórter com a prudência do velho editor. O jornalismo investigativo, essencial na luta contra a corrupção, reclama uma harmoniosa combinação de adrenalina e cabelos brancos.
O autor, Carlos Alberto Di Franco, é diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística e diretor para o Brasil de Mediacción - Consultores em Direção Estratégica de Mídia - Universidade de Navarra.