Regional

Livro aborda escravidão em Botucatu

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

A presença de escravos na região, suas origens, sua importância para as comunidades locais, o relacionamento com os senhores, os castigos e os crimes cometidos por eles foram cuidadosamente apurados pelo mestre em história, Cesar Mucio Silva, e agora fazem parte do livro “Processos-crime: violência e escravidão em Botucatu”, recém-lançado pela Livraria Cultura.

A base do trabalho, segundo o escritor, são os processos-crime registrados na segunda metade do século 19, nos quais os escravos constam como réus e vítimas. Muitos dos crimes foram cometidos aparentemente por motivos fúteis e, mesmo assim, os acusados tiveram de enfrentar a Justiça e seus procedimentos formais.

Entre esses crimes estariam pequenos furtos em igreja, em loja, de animal e até briga por causa de escrava.

O estudo de 124 páginas mostra que o escravo em Botucatu não trabalhava como mão-de-obra em grandes lavouras, mas exercia funções mais caseiras, como serviçal doméstico, carregador, consertador de cercas, carroceiro, ajudante em bar, boiadeiro ou domador de mulas.

Em razão disso, Silva conclui que as relações dos escravos com os senhores e os homens brancos eram “relativamente flexíveis”, o que atenuava um pouco a condição do “ser escravo”. Isso não significa, segundo o autor, que se tratasse de uma “escravidão boa”. “Isso seria ridículo”, declarou ele.

Punição

Dos castigos relatados no livro, Silva destaca pelo menos um. Ele conta que certa vez um senhor colocou os braços e as pernas de uma escrava dentro de buracos na parede e do outro lado amarravam pedras pesadas nas mãos e nos pés como punição.

Também existem histórias de escravos que envenenaram seus senhores ou que colocaram vidros moídos na comida.

Toda documentação referente ao assunto foi estudada por Silva de 1991 a 1995, enquanto desenvolvia sua dissertação de mestrado, na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Além dos processos-crime, o autor teve acesso a atas da Câmara Municipal de Botucatu, ofícios diversos, correspondências, livros de batismo, de óbitos e de casamentos da diocese local.

Mesmo após a abolição da escravatura, ocorrida em 1888, Silva disse ter pinçado da história “uns dois casos” para saber como os ex-escravos passaram a viver.

O que consta nos documentos não é muito animador. Segundo o autor do livro, há registros de pessoas que teriam ficado sem amparo nenhum, “jogadas na rua”, mas, de qualquer forma, “livres”.

Silva conta que entre 1840 e 1860 havia muitos escravos naturais do continente africano. A partir da abolição, quando o tráfico internacional cessou, teve início a negociação de escravos dentro do Brasil.

Os que foram trazidos para Botucatu, após a abolição, eram, principalmente, do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Um pouco mais tarde, começaram a ser negociados dentro da própria província de São Paulo, vindos da região de Piracicaba, Itapetininga, Sorocaba, Rio Claro e Capivari, entre outras.

De acordo com alguns números que constam no livro, em 1873, portanto pouco antes da abolição, a província de São Paulo possuía quase 170 mil escravos. Desse total, 1.316 estavam em Botucatu, sendo 703 homens e 613 mulheres. Na época, a cidade tinha cerca de 4 mil habitantes, segundo o autor. No Brasil, a população de escravos girava em torno de 1 milhão.

Silva faz questão de esclarecer que, embora use Botucatu como referência, os dados abrangem também as cidades mais próximas, como São Manuel, Itatinga, Avaré, Pardinho, Bofete e outras. O livro já está à venda nas livrarias e pode ser adquirido pelo preço de R$ 26,00.

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