Jaú - A partir deste mês, o Hospital Amaral Carvalho (HAC) de Jaú (47 quilômetros a leste de Bauru) está autorizado pelo Ministério da Saúde a fazer transplantes de medula óssea entre pessoas sem nenhum grau de parentesco. O hospital realiza transplantes desde 1996, mas desde então o serviço era feito apenas entre parentes. Ou seja, quando o doador e o receptor são de uma mesma família.
Após a autorização do Ministério da Saúde, publicada no Diário Oficial da União, o HAC amplia o atendimento e passa a fazer parte de um grupo restrito de hospitais que realiza o transplante entre indivíduos não aparentados.
De acordo com o médico Mair Pedro de Souza, da equipe de transplante de medula, os dois primeiros pacientes devem chegar ao hospital nos próximos dias. A identidade e a procedência dos receptores e doadores são mantidas em sigilo por determinação do Ministério da Saúde.
Nem mesmo os pacientes ficam sabendo quem são os doadores. Segundo Souza, a medida tem como objetivo evitar constrangimentos ou envolvimento emocional entre as partes, principalmente nos primeiros anos após a cirurgia.
Os transplantes, nessa modalidade, são feitos já há algum tempo em hospitais como o das Clínicas, da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, no Centro de Medula Óssea do Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, e no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), entre outros poucos.
Segundo Souza, o HAC vinha se preparando desde 2002 com o objetivo de obter autorização para também fazer o transplante entre não aparentados.
Durante esse tempo, a equipe médica acompanhou o trabalho que vinha sendo feito no Brasil e ficou animada com os bons resultados obtidos, especialmente em Curitiba. “São resultados que se comparam com aqueles que são alcançados em outras partes do mundo”, comentou Souza. “A partir daí, acabamos nos motivando a implementar todas as modificações necessárias para entrar nessa seara.”
Desde 1996, o HAC realizou cerca de 360 transplantes de medula óssea entre pessoas da mesma família de 19 Estados brasileiros.
Desse total, cerca de 65% foram realizados entre irmãos ou outros parentes compatíveis e em 35% dos casos utilizou-se a medula do próprio paciente. Todo o tratamento é custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Desde o início, o trabalho é feito em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e o Hemocentro de Botucatu.
Para ser doador
Segundo informações do Inca, qualquer pessoa que tenha entre 18 e 55 anos e boa saúde (não ter doença infecciosa ou incapacitante) poderá doar medula óssea. A substância é retirada do interior de ossos da bacia, através de punções, e se recompõem num prazo de 15 dias.
Pela dificuldade em encontrar doadores, são organizados registros, cuja função é cadastrar pessoas dispostas a doar. Quando um paciente necessita de transplante, esse cadastro é consultado.
A doação é um procedimento que se faz em um centro cirúrgico, sob anestesia geral, e requer internação por, no mínimo, 24 horas. Nos primeiros três dias após a doação, pode haver desconforto localizado, de leve a moderado, que pode ser amenizado com o uso de analgésicos.
Normalmente, os doadores retornam às suas atividades habituais depois da primeira semana.
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Fila única
Os transplantes entre não aparentados são feitos obedecendo à ordem de uma fila única, instituída em nível nacional e coordenada pelo Ministério da Saúde. Por esse motivo, os envolvidos nessas primeiras intervenções do HAC não são necessariamente de cidades da região. Quando a doação envolve parentes não há fila de espera.
A ampliação do atendimento entre indivíduos não aparentados vai beneficiar os pacientes que não encontraram doadores compatíveis dentro da própria família.
“A grande contribuição do hospital é ajudar, na medida do possível, a diminuir a fila (de espera)”, disse o médico Mair Pedro de Souza. “É uma situação extremamente dramática você saber que tem um doador e não há possibilidade de transplantar (o mais rápido possível)”.
Enquanto os pacientes que precisam da medula tem de enfrentar uma fila de alcance nacional, os doadores fazem parte de uma lista mundial. Ou seja, a medula doada por um jauense, por exemplo, poderá ser usada em um paciente de outro país e vice-versa.
Isso em razão da dificuldade de se encontrar doadores. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), a chance de se encontrar uma medula compatível pode chegar a uma em cada 100 mil.