Regional

'Zé do Terço' doa material que produz

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Foi num dia de muita chuva que o motorista aposentado José Correia da Silva, 74 anos, se "encontrou" com Nossa Senhora. A partir do encontro, ele passou a confeccionar terços. Sua obra já atravessou fronteiras e hoje ele tem terços na Itália e em Portugal.

Para contar a história de como começou a fazer terços, o Zé do Terço, como é conhecido em Jaú, se emociona. Com os olhos cheios de lágrimas, ele conta que há mais de 20 anos sentiu uma vontade fora do comum de ir visitar sua irmã, que morava no Paraná.

Ele chegou em um dia de muita chuva. “Antigamente, a gente dizia que era chuva de cordão. Aquelas fortes misturada com ventos. Quando fui desfazer a mala, percebi que não havia levado o meu terço que eu rezava todos os dias.”

O aposentado acredita que foi Nossa Senhora quem escondeu o terço para poder levá-lo até um pé de contas. “Fui impulsionado a ir pescar, mesmo embaixo de chuva. Enquanto caminhava, o local foi se enchendo de água. Quando percebi, a água estava no meu ombro e eu me agarrei em uma árvore. Era um pé de contas de fazer terço.”

Zé do Terço não teve dúvidas e apanhou algumas delas e colocou no bolso, retornando para a casa da irmã, em seguida. “No quintal da casa, encontrei uma tela de arame e peguei alguns pedaços. Troquei de roupa e comecei a confeccionar um terço. Nunca tinha feito um antes e consegui.”

Na mesma noite, ele começou a rezar o terço. “Quando cheguei no segundo mistério ouvi a voz de Nossa Senhora dizendo: Meu filho, você gosta de escrever e fazer artesanato, mas a partir de agora vai fazer terços, esta será sua missão.”

A santa teria dito ainda para que ele nunca vendesse os terços. “Os terços devem ser doados e as pessoas que precisam vão se aproximar de você.” A partir de então, o motorista passou a usar suas horas de folga e lazer para fazer terços. "E por incrível que pareça, sempre que tenho algum pronto, aparece alguém que precisa."

O terço faz parte do vestuário do aposentado. “O meu terço fica no bolso da minha calça. Por onde eu ando, ele vai junto. Quando tenho terço pronto, carrego no outro bolso para doá-lo.”

O aposentado diz que reza um terço por dia. “Já consegui muitas graças com a reza.” Vinte anos mais novo, ele conseguia confeccionar quatro terços por dia. Hoje, com a visão comprometida, ele faz dois. “A Mãe faz as pessoas que precisam se aproximar. Tenho o compromisso de doá-los e assim o faço. Minha aposentadoria é pouca, mas não deixo ninguém pagar por ele.”

Terço mudou de cor

Os terços confeccionados pelo aposentado são feitos com contas brancas. “Existem outros tipos de contas, mas como a primeira era branca, sigo fazendo com elas. Antigamente, eu as adquiria no Paraná. Hoje, elas chegam da Bahia, onde há plantação de contas.”

Católico fervoroso, Zé do Terço conta que, em certa ocasião, rezava terço no cemitério, junto outros legionários, na época de finados. “Os legionários paravam para rezar nos túmulos onde havia gente rezando e eu discordei. Falei que naqueles túmulos já havia pessoa rezando e que deveríamos rezar nos túmulos abandonados pelas famílias.”

Em um dos túmulos aconteceu o inesperado. “Procuramos um túmulo abandonado e quando começamos a rezar as contas do terço, que eram brancas, passaram a ficar pretas.”

Os legionários continuaram rezando o terço, sem entender o que estava acontecendo. “Quando terminamos a reza, as contas voltaram a ser branquinhas.”

Mais de 15 mil terços

Os terços confeccionados por Zé do Terço atravessaram fronteiras. “Até o papa João Paulo II tem terço feitos por mim, levado por padres e religiosos. Em Portugal também há terços meus. Eu calculo que já fiz mais de 15 mil terços nesses mais de 20 anos.”

O terço tem 59 contas e muito trabalho com arame e alumínio. “Os meus terços estão com pessoas de todo o Brasil, na região não sei de outra pessoa que faz terços.”

Ele lembra que a entrega mais emocionante que ele presenciou aconteceu há vários anos, em São Carlos. “Era uma comemoração religiosa e eu havia levado dez terços no bolso. Doei nove e um ficou no bolso. Pensei, não tenho mais para quem doar. Este vai voltar para casa.”

Mas na hora da comunhão, no interior da igreja, ele foi surpreendido pela ação de uma jovem. “Eu caminhava para o altar com o terço na mão, quando uma jovem pulou na minha frente e pegou o terço. Eu fiquei sem ação. Um legionário que estava na fila viu quando a moça pegou o rosário nas mãos e o encharcou de lágrimas. Ela estava precisando.”

Dentre outros benefícios do terço, o aposentado lembra que é uma arma contra as coisas ruins. “Antigamente dizia-se que só ele afastava o demônio. Eu acho que ele afasta tudo o que é contra nós, por isso devemos andar com um no bolso.”

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