Ao longo da História, o anti-semitismo tem sido uma manifestação única de ódio, intolerância e perseguição. O anti-semitismo floresceu, inclusive, em comunidades nas quais nunca houve judeus e tem sido precursor das discriminações contra minorias, de forma geral. O crescimento do anti-semitismo em qualquer lugar é uma ameaça às pessoas de todo o mundo. Portanto, combatendo o anti-semitismo estamos lutando pelo futuro da humanidade. O Shoá, ou Holocausto, foi o epítome deste mal. Na década de 1930, a Alemanha era uma sociedade moderna, na vanguarda do avanço técnico e do progresso cultural. Mesmo assim, o regime nazista que chegou ao poder decidiu exterminar os judeus da face da Terra. Nós sabemos - e no entanto ainda não compreendemos - que 6 milhões de homens, mulheres e crianças inocentes morreram, simplesmente pelo fato de serem judeus.
O nome “Nações Unidas” foi cunhado para descrever a aliança que lutou para destruir aquele regime bárbaro. Nossa Organização surgiu no momento em que o mundo tomava conhecimento do horror dos campos de concentração e de extermínio. Seria, portanto, razoável dizer que as Nações Unidas emergiram das cinzas do Holocausto. E uma agenda de diretos humanos que fracassa na luta contra o anti-semitismo nega sua própria história. É difícil acreditar que, 60 anos após a tragédia do Holocausto, o anti-semitismo esteja novamente mostrando sua cara.
Devemos a nós mesmos, assim como aos nossos irmãos judeus, o dever de nos mantermos firmes contra este tipo particular de ódio que o anti-semitismo representa. E isto significa que devemos estar preparados para examinar mais de perto a natureza da manifestação anti-semita atual.
Precisamos reconhecer que o histórico das Nações Unidas em relação ao Holocausto tem, algumas vezes, se mantido abaixo de nossos ideais. A resolução da Assembléia Geral de 1975, que igualava sionismo a racismo, foi uma decisão extremamente infeliz. Sinto-me satisfeito que ela já tenha sido rescindida. Mas ainda permanece a necessidade de vigilância constante. Devemos rejeitar aqueles que tentam negar a existência do Holocausto ou o seu caráter único, como também aqueles que continuam a espalhar mentiras e estereótipos desprezíveis sobre os judeus e o judaísmo.
A estrutura de direitos humanos das Nações Unidas tem sido mobilizada na batalha contra o anti-semitismo e isso deve continuar. Os Estados membros deveriam seguir a excelente diretriz da Declaração de Berlim, recentemente adotada pela Organização pela Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Aqueles 55 Estados condenaram, sem ressalvas, todas as manifestações de anti-semitismo. Também declararam, de maneira explícita, que o encaminhamento de questões sobre a política internacional, incluindo aquelas que tratem de Israel ou de qualquer outro lugar do Oriente Médio, nunca justifica o anti-semitismo. A luta contra o anti-semitismo deve ser a nossa luta. E os judeus de todo o mundo devem sentir que as Nações Unidas também são seu lar.
O autor, Kofi Annan, é secretário-geral da Organização das Nações Unidas - ONU.