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Eles são pais em casa e ao volante

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

“Paistoristas”. Talvez essa seja a melhor definição para aqueles profissionais que, além da obrigação de transportar estudantes, têm a responsabilidade de atuar como verdadeiros pais ao volante, compartilhando alegrias e tristezas e, se preciso, dando broncas e corrijindo seus “filhos-alunos”.

Um dos que exerce esta “dupla função” em Bauru é o motorista José Duarte, que há 13 anos, juntamente com a mulher Rita de Cássia, leva em suas vans crianças de 7 a 12 anos. Pai de três filhos, “tio Zé”, como é chamado entre os pimpolhos, destaca que exercer o papel da figura paterna no interior do veículo não é exagero.

“Realmente, é uma missão dupla. Além de conduzi-los com segurança, temos a incumbência de cuiar delas como se fôssemos pais, ouvindo suas queixas, tristezas, alegrias, necessidades e compartilhando suas diferentes rotinas”, ressalta Duarte. Entre os assuntos mais comuns, conforme o motorista, estão as dificuldades com as matérias escolares. “Nessas horas, a gente ouve e tem de dar toda a atenção”, enfatiza.

Por isso, ele considera que, mais do que um simples motorista, também atua como educador infantil. “Nesse sentido, o dia-a-dia com as crianças colabora bastante, principalmente para contornarmos as situações mais problemáticas”, sustenta Duarte. Por “situações problemáticas” entenda-se, entre outras, “bagunças” generalizadas. “Há crianças hiperativas e irriquietas que dão mais trabalho para ficar em seus lugares e, se deixarmos, elas incendeiam o comportamento dos outros na van”, afirma.

Nessa hora, Duarte revela usar de paciência e, principalmente, uma bom papo para acalmar os ânimos e impor limites aos pequenos passageiros. Entretanto, para esta tarefa ele também conta com o apoio fundamental dos pais verdadeiros. “Tentamos controlar com muita conversa, mas também procuramos alertar os pais sobre o comportamento dos filhos”, conta.

Outro que também passa “sufoco” com as peripécias de seus passageiros é o motorista de ônibus Vanderlei de Paula da Silva, responsável por transportar cerca de 90 estudantes, entre crianças, adolescentes e adultos, do município de Arealva (40 quilômetros a norte de Bauru) até a “Sem Limites”, onde os distribui em 11 escolas pela manhã e sete à noite.

Há sete anos na função, Silva não titubeia em responder quando perguntado com quem costuma “sofrer” mais para domar o comportamento. “Sem dúvida, os adultos, que costumam fazer um tropé no fundo do ônibus. Enquanto alguns querem dormir, outros não estão nem aí e bagunçam para valer. As crianças são as que dão menos problemas”, garante o condutor.

Segundo o motorista, o clima costuma “pegar fogo” no início dos anos letivos, oportunidade em que surgem os chamados “bixos” - os calouros das instituições escolares - do ônibus. “É uma zoeira só”, salienta. Ele mesmo, às vezes, torna-se alvo das brincadeiras. “Isso ocorre porque todos são amigos da gente”, destaca.

Entretanto, quando o assunto é sério, Silva não brinca em serviço e, como todo pai que se preze, segue à risca o que a experiência da idade lhe ensinou. “Transportar dezenas de pessoas em um ônibus é uma enorme responsabilidade. Por isso, às vezes, é preciso dar uma de pai, ajudando uma criança a atravessar a rua, dar conselhos e, se preciso, até bronquear”, afirma.

Por tudo isso, o motorista, pai de um filho, considera estar na profissão certa. “Sempre sonhei em exercê-la. Ela é muito bacana, pois, entre outras alegrias, te proporciona o prazer de ver os alunos formando-se”, comenta.

Curiosidades

Com tanta vivência na profissão de “paistoristas”, Duarte e Silva já presenciaram histórias curiosas. O primeiro não se esquece quando uma criança ficou trancada em casa e não pode tomar a van. “A mãe dela saía cedo de casa e deixava a chave da porta, em um lugar combinado. Naquele dia, ela trocou o local e o filho não encontrou, impossibilitando-o de ir à aula”, recorda o “Tio Zé”.

Já Silva relembra de um episódio que, propositalmente, parou na Polícia Rodoviária para conter a bagunça no interior do ônibus. “Eu falei para eles que ia fazer e não deram bola. Depois que fiz, pareciam santos”, conclui.

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