“O tempo é o mágico de todos os mistérios”.
Guimarães Rosa
Cada vez mais, o tempo me intriga. Essa coisa de envelhecer na idade biológica, e o coração, esse danado, teimar em continuar jovem, é no mínimo, um grande complicador!
Driblar os desalentos, driblar os desapontamentos que nos atingem pela vida à fora, perdoar os desafetos que angariamos sem que nem saibamos o porquê, não deixar a esperança morrer, mesmo que os sonhos não se tenham todos concretizados... Eta trabalheira danada!
Eta viver complicado, que exige sabedoria. Uma sabedoria que não se aprende em livros, mas se aprende no tête-à-tête com a vida e no toma lá, dá cá, com os fatos acontecidos.
O amor romântico moldou nossa sensibilidade. A família era importante para nós, os livros que líamos, os filmes que assistíamos, a música que ouvíamos tinham um papel catártico. Sofríamos, chorávamos, ríamos às gargalhadas, mas sabíamos que aquela peça, aquela história não era real. Era claro em nossa cabeça, que não íamos viver aquilo, que era apenas uma representação. Era a nossa catarse.
Desde o teatro grego, o sofrimento era apenas catártico, ninguém acreditava que ia viver aquilo. A vida fora dali era outra. Era pra ser vivenciada com lutas e vitórias, mas tínhamos de trabalhar cada dia, como um campo a ser conquistado.
Conclusão: com medo de sofrer com o outro, passamos a sofrer sozinhos. Mudamos de sofrer de como manter a família, para sofrer de solidão, prejuízo de nunca termos alguém a compartilhar a vida conosco. Já disse alguém com muita propriedade que a alegria dividida vale o dobro e tristeza dividida vale a metade.
Viva a liberdade de ser sem precisar estar.
E o tempo?
Bem, o tempo, vai passar mesmo. É inexorável! Não perdoa.
O tempo como a morte iguala todos os homens! Sim digo homens, englobando a nós mulheres, não como quer Lacan, ao afirmar que a mulher inexiste! Só rindo, porque isso já é assunto pra outra crônica!
A autora, Ercília Pollice, é escritora, poetisa e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte.