O bauruense Décio Patelli, árbitro de pólo aquático, embarcou ontem para Atenas. Patelli é o único representante brasileiro na modalidade, uma vez que o País não conseguiu garantir vaga para disputar o torneio olímpico. Antes de viajar, Patelli falou com o Jornal da Cidade sobre suas expectativas, sua carreira e, claro, pólo aquático.
JC - O que representa para você estar numa Olimpíada?
Décio Patelli - Para mim é como se estivesse indo para minha primeira Olimpíada, já que apitei em Barcelona (1992). É um momento especial para minha carreira, pois este é o maior evento da Terra. Estou apreensivo, mas motivado e preparado, porque estou há muitos anos nesta estrada, estou seguro e sei o que posso fazer.
JC - O que motiva essa apreensão?
Patelli - Porque meu objetivo maior é apitar a final olímpica e sei que tenho condições disso como árbitro, principalmente por ser neutro e ter uma boa vivência internacional. Apito jogos internacionais há quase 20 anos. Mas devido à magnitude do evento não dá para passar por cima de uma certa apreensão, já que milhões de pessoas no mundo inteiro vão estar me observando, a tevê repetirá as jogadas e um erro ficará mais visível.
JC - Como é apitar uma modalidade em que o Brasil não estará disputando?
Patelli - É uma tristeza para mim, apesar de que, sem o Brasil, eu sou árbitro neutro e isso aumenta minhas chances de apitar uma final. Mas eu gostaria que o Brasil estivesse lá, mesmo que não fosse disputar uma medalha olímpica, pois isso daria uma representatividade maior para pólo aquático brasileiro. Mas eu estou feliz de estar representando o Brasil.
JC - Então foi vantagem para você o Brasil ter ficado fora das Olimpíadas?
Patelli - Infelizmente sim. Eu fico triste pelo pólo aquático brasileiro, mas contente por mim.
JC - Para você, por que o Brasil ficou fora? Como árbitro você observa os aspectos técnicos do esporte ou apenas a parte disciplinar?
Patelli - Sim, eu vejo e analiso a parte técnica também. Eu acho que o nosso pólo está no limite do amadorismo e nós não podemos mais continuar assim. Precisamos ter uma visão um pouco mais profissional do esporte. A Confederação (Brasileira de Desportos Aquáticos - CBDA) precisa investir um pouco mais. Apesar disso, o pólo aquático brasileiro melhorou muito nos último anos, com participações na Liga Mundial e em campeonatos mundiais. Nós não tomamos mais porrada do mundo inteiro.
O que falta para o Brasil é uma seleção que tenha um respaldo da CBDA, com atletas subsidiados, ou seja, ganharem um pouco para se manter, um técnico que tenha um respaldo como o Barbosa (basquete feminino) e o Bernardinho (vôlei masculino) têm.
JC - E como você se tornou árbitro internacional num país que tem um pólo aquático semi-amador?
Patelli - É engraçado, mas a arbitragem brasileira, e falo isso sem corporativismo, é uma das melhores do mundo. Nem sempre os países que têm bom pólo aquático tem uma arbitragem qualificada. Por exemplo, a Espanha, que já foi campeão mundial e olímpica, não tem uma arbitragem de qualidade como o Brasil. Para mim, o melhor árbitro do mundo é da Turquia, que é o (Erhan) Tulga, e o pólo aquático turco é pior que o do Brasil. A arbitragem brasileira é reconhecida mundialmente e Não falo isso de mim, mas de uma maneira geral.
JC - Como você foi indicado para ir à Olimpíada?
Patelli - A Fina tem um ranking de árbitros e eu estou há bastante tempo nele e tenho apitado campeonatos mundiais, apitei a medalha de bronze em Fukuoka, no Japão, há dois anos. Somos indicados pela performance dos últimos dois anos.
JC - Você jogou pólo aquático? Como se tornou árbitro?
Patelli - Joguei sim, fui atleta do BTC por muitos anos. Eu comecei a apitar treino aqui no clube e depois me convidaram para apitar nos Jogos Universitários Brasileiros, em 1985. Mas desde os 13 anos de idade eu nunca fiquei longe do pólo, nunca fiquei longe da borda da piscina. Tenho 50, então, faz 37 anos que estou ligado a este esporte.
JC - E o pólo em Bauru? O esporte tem tradição na cidade, mas nunca chegou a uma grande conquista. Por que?
Patelli - O pólo de Bauru necessita de um pouco mais de investimento, como todas as modalidades esportivas do País. Bauru sempre revelou grandes atletas. O que eu acho que falta é segurar mais os jogadores por aqui. Nas categorias de base sempre fomos bem, mas depois o cara vai para São Paulo estudar, não pára de jogar, mas se integra ao Pinheiros, ao Paulistano, ao Paineiras. Hoje eu posso montar duas boas seleções só com atletas que começaram aqui.
JC - E a segurança? O medo de ataque terroristas em Atenas te preocupa?
Patelli - Muito. Eu estive em Atenas em abril, quando fomos fazer um curso técnico da Fina, e uma das questões que foi colocada foi a segurança. Nós temos inclusive uma cartilha sobre o assunto. E essa cartilha nos aconselha a evitar aglomerações, etc. Eu não vou estar na abertura (hoje), tenho o crachá para ir mas não vou, porque eu estou com medo realmente de que possa ter alguma coisa quando misturar todo mundo lá. Eu não minto sobre isso, estou com medo sim.
JC - O que justifica isso?
Patelli - Eu estive em Atenas e vi de perto o esquema de segurança. Não achei ótimo. Pode ser que, com o início dos Jogos, melhore. Mas existia pontos falhos, eu entrei e saí do aeroporto de Atenas sem ser revistado. Então fiquei realmente preocupado. Mas vamos torcer para que não aconteça nada, não por mim, mas porque violência e esporte não combinam.