“Sou da roça e não posso esconder o banzo quando me lembro da vida na fazenda. Para espantar a saudade, estou sempre reinando com coisas da natureza. Estava separando algumas revistas velhas, quando me deparei com um artigo na revista Manchete Rural ensinando a fazer um defumador.
Nem pestanejei! Em uma hora tinha em mãos uma manilha de oito polegadas de largura, cem tijolos, serragem, lata, tampas e duas belas rodelas de surubim. Avisei nossa ‘secretária do lar’ que iríamos provar surubim defumado antes do almoço.
Dito e feito! Exatamente às 11h as rodelas estavam acobreadas, com aspecto de dar água na boca. A Di (apelido carinhoso de nossa empregada) provou e fez cara de quem comeu e não gostou:
- Está com gosto de calango!
E foi logo jogando a maravilhosa rodela, sem maiores cerimônias, para o Bopp (nome do nosso cão vira-latas, homenagem ao descobridor do cometa que à época enfeitava os céus de Feira de Santana, na Baia). Ele devorou sem objeções.
Antes de passar a maior bronca na Di, resolvi provar o outro pedaço. Literalmente, parecia calango defumado.
Depois de longas considerações e muita gozação por parte da Di, resolvi fazer uma avaliação de todo o processo.
Não podia ser o surubim. Cheirei o peixe antes e estava uma delícia.
Quando olhei por baixo do defumador, no buraco da lata de serragem, lá estava um imenso calango, devidamente tostado. O coitado tentou se esconder bem ali, no meio das brasas, quando fugia de uma implacável perseguição do Bopp.
A Di riu tanto que, acometida de forte acesso de tosse, quase teve de ser levada ao pronto socorro.”
Francisco José Vênere é o Chico Pescador, contador de histórias
* Artigo publicado no site www.pescarte.com.br