Você sabia que sair por aí intermediando vendas de casas, terrenos ou apartamentos com fins lucrativos e sem o devido registro no Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci) pode causar problemas? Agora, você imagina que estrago não faz uma reportagem irresponsável publicada num veículo de comunicação de massa? Recentemente, a revista “Isto é” trouxe um mea culpa de um jornalista que há 11 anos trocou US$ 1 mil por US$ 1 milhão numa matéria da “Veja” e desgraçou a vida de um dos mais conceituados políticos da época, o então presidente da Câmara dos Deputados, Ibsen Pinheiro.
E aquele tal de Larry Rohter, que levianamente chamou o presidente de bêbado na frente do mundo inteiro pelas páginas do NYT, e o Lula cedeu-lhe o lugar de vítima ao tentar expulsá-lo. Bom, se tivéssemos um Conselho Federal de Jornalismo (CFJ) a incompetência do repórter teria uma punição adequada e o nosso chefe de Estado seria poupado do desnecessário desgaste por que passou.
Essa é a função de um conselho: zelar pela qualidade do exercício profissional. Se algum alquimista de plantão resolver inventar alguma nova poção milagrosa, ele pode cair na mira do conselho dos químicos ou dos farmacêuticos. Há também os olhares atentos dos conselhos dos contabilistas, psicólogos, médicos (CRM), fisioterapeutas, assistentes sociais, engenheiros e arquitetos (Crea) e tantos outros. Sempre de olho na qualidade de quem exerce a profissão. Por que os jornalistas não podem ter o seu próprio orgão de normatização?
Quer coisa mais agradável e livre do que a música. Pois é, existe a Ordem dos Músicos do Brasil, que tem a função parecida com a de um conselho, só que um pouco mais complexa e autônoma. Como é o caso dos advogados que também têm a sua Ordem, a OAB. Nem por isso esses órgãos são sinônimos de censura ou de cerceamento das liberdades, como ecoa a chiadeira contrária ao CFJ. Muito pelo contrário. A OAB, por exemplo, esteve à frente de importantes lutas em defesa da nossa democracia.
A existência de um órgão de regulamentação, como o proposto por parte dos jornalistas, é natural e necessária numa profissão regulamentada. Caso exista um corretor, um médico ou jornalista pilantra é o conselho que irá ajudar a garantir a qualidade do exercício profissional, preservar a boa conduta ética e contribuir com a sua segurança na hora da compra de um bem, da contratação de um serviço ou da publicação de uma matéria. Longe de ter uma função censora ou corporativa, o CFJ tem como principal pauta, na sua espinha dorsal, o código de ética da profissão e o respeito à legislação que a regulamentou. Cuidar para que isso ocorra é mais do que uma contribuição dessa autarquia. É uma conquista da sociedade. E, quanto mais democrática for essa sociedade, mais imprescindível torna-se o jornalismo.
A criação do CFJ é um avanço. Discuti-lo é necessário e é isso que estamos fazendo com a sociedade, mas não é tudo. É preciso uma criticidade permanente por parte de quem consome as notícias, porque nem sempre o que a imprensa publica é a verdade como a idealizamos. Pode ser, na mais nobre das intenções, apenas a melhor versão dela.
O autor, Luís Victorelli, é diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e membro da Comissão Estadual de Qualidade de Ensino em Jornalismo.