Empinar papagaio tornou-se não apenas uma ameaça à integridade física de crianças e motociclistas que podem se ferir com as linhas providas de cerol (mistura de vidro moído com cola) como também um transtorno para a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL). No mês passado, 45 ocorrências de interrupção de energia elétrica em Bauru foram provocadas pela brincadeira.
O número, que representa 7% dos pouco mais de 640 casos notificados em julho pela empresa, justifica o trabalho de remoção de papagaios da rede elétrica promovido por técnicos da CPFL. De acordo com o gerente de serviços de campo Noroeste da empresa, Edson Aparecido Lopes, nas férias de meio do ano as equipes chegam a retirar sete papagaios da fiação de uma mesma rua e até 50 deles no mesmo bairro.
O problema é tão acentuado neste período, que resvala na Polícia Militar (PM). Até anteontem, a PM havia registrado 183 ocorrências envolvendo pipas. A abundância de casos levou a CPFL a realizar palestras dirigidas aos estudantes, que são advertidos sobre os riscos e as conseqüências da brincadeira. No ano passado 5 mil alunos receberam as instruções, índice que deve ser mantido neste ano.
Anteontem, duas turmas da 5ª série do ensino fundamental de um colégio particular da cidade conheceram as instalações da empresa e souberam que, quando as pipas enroscam em postes, transformadores e fios elétricos, podem provocar curtos-circuitos e a conseqüente interrupção de energia elétrica.
A estudante Daniela Madureira Santiago, 12 anos, desconhecia o problema. Ela confessa que empinava papagaio com o irmão e que já aconteceu da rabiola (da pipa) ficar presa na rede elétrica. “Não tentei tirar (do poste) porque meu irmão sempre fazia (papagaio) a mais. Mas vou procurar um outro local (para brincar)”, diz.
Ela e a colega Viviane de Souza Damasceno, 11 anos, afirmam que o conhecimento adquirido na atividade realizada anteontem na sede da CPFL será transmitido aos outros amigos do bairro. “Foi muito importante (o trabalho de conscientização e informação) porque os alunos foram questionados sobre quanto custa a pipa e quanto vale uma vida”, acrescenta a professora Maria Francisca Mota Mancilha.
Fatalidade
A tentativa de tirar um papagaio de postes e transformadores pode ser fatal diante do risco de provocar uma descarga elétrica de 11 mil volts, informa Lopes. Até uma tomada residencial comum de 110 volts pode provocar a morte, dependendo das circunstâncias da vítima.
O gerente de serviços de campo da CPFL também alerta para o papel laminado muitas vezes utilizado para fazer rabiola de papagaio. Ele é condutor de energia elétrica, assim como linhas laminadas e fios de cobre, e pode provocar choque.
Por essa razão, o comandante da Força Tática da PM de Bauru, capitão Wellington Luiz Dorian Venezian, recomenda a confecção de pipas sem rabiola, pois são justamente elas que enroscam na rede elétrica. “Uma outra dica é não soltar pipas em dias com possibilidade de chuva, porque elas podem ser condutoras de eletricidade”, acrescenta.
Tanto o capitão quanto a CPFL insistem para que a brincadeira seja feita em lugares abertos, planos e a uma distância bastante segura dos cabos elétricos. O ideal é empinar pipas em parques, campos de futebol e áreas mais afastadas dos centros.
No entanto, mesmo nestes locais os acidentes não estão descartados por causa de buracos, por exemplo. Para evitá-los, basta observar o local onde a brincadeira será realizada, orienta Venezian.
Na opinião dele, ciclistas e motociclistas que transitam em regiões onde a prática de empinar papagaios é comum devem estar atentos para a possibilidade de acidentes provocados por linhas com cerol. O ideal é que instalem um dispositivo de segurança (uma haste) no guidão.
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Interrupções
As pipas causaram 7% das quedas de energia em julho, enquanto as árvores foram responsáveis por 40% das ocorrências de interrupção do abastecimento de eletricidade. Ou seja, 255 dos problemas enfrentados pela empresa no mês foram consequência de galhos sob a rede elétrica, informa a CPFL.
Na segunda colocação estão os defeitos identificados no interior das residências dos consumidores. Eles somam 23% dos pouco mais de 640 casos registrados no mês. Já o vandalismo figura como a terceira principal causa para as quedas de energia.
“São várias as circunstâncias (de vandalismo). São objetos que as pessoas jogas ou furtos”, lamenta o gerente de serviços de campo Noroeste da empresa, Edson Aparecido Lopes.