Cultura

Bauru revisada

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

No mês do seu aniversário, Bauru ganha mais duas obras que resgatam diferentes aspectos da sua história.

“Polifonia Urbana”, de Célio José Losnak e “Lembranças da Imigração: Cenas e Cenários de Vida dos Imigrantes Espanhóis em Bauru (1892-1930)”, de Rosemeire Pereira D’Ávila, ambos editados pela Editora da Universidade do Sagrado Coração (Edusc), serão lançados hoje, às 20h, no hall do Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves”.

O primeiro livro faz uma análise de três décadas de representações sociais na cidade, o segundo, recupera a história da imigração espanhola em Bauru.

A obra de Losnak, professor do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, é resultado de três anos de pesquisas que geraram sua tese de doutorado em História Social na Universidade de São Paulo (USP).

O livro analisa, de modo geral, a ação das elites no desenvolvimento da cidade entre 1950 e 1980. “Busquei entender como a política de desenvolvimento da Ditadura Militar acontecia em Bauru”, diz o autor, que teve como fontes valiosas os jornais do período, fotos da cidade - que revelam a dinâmica do seu crescimento - e entrevistas, que geraram o segundo volume da sua tese, com histórias de vida dos bauruenses.

Segundo Losnak, o processo de transformação urbana e o projeto público para a cidade no período da sua pesquisa começa ainda nos anos 50, no governo de Nicola Avallone Jr., apontado na obra como um dos grandes líderes políticos da cidade ao lado de Alcides Franciscato. Os dois prefeitos, aponta o autor em seu livro, apesar de terem administrado a cidade em momentos diferentes, consideravam fundamental inseri-la em um novo tempo.

Entre outros pontos, Losnak mostra como, em determinado momento, a indústria e o setor viário, aliado à idéia de cidade moderna, foram símbolos de progresso e objetos dos projetos das administrações, influenciando diretamente no desenvolvimento da cidade, apesar de todos os benefícios da industrialização, tidos como certos pela classe política, não terem se efetivado concretamente.

Com 284 páginas, o livro, que traz uma série de fotos de Bauru, ajuda a compreender melhor as origens da cidade, seus habitantes e, principalmente, o seu presente.

Imigração

“Lembranças da Imigração: Cenas e Cenários de Vida dos Imigrantes Espanhóis em Bauru (1892-1930)”, primeiro livro da professora Rosemeire Pereira D’Ávila, resgata a história da imigração espanhola na cidade desde seus primeiros registros, no final do século 19.

O livro vem da pesquisa de mestrado concluído na Unesp de Franca. Descendente de espanhóis, a autora é pioneira na pesquisa da imigração ibérica na região. “Não havia nada escrito sobre a chegada e a vida deles em Bauru”, aponta DÁvila, apesar dos espanhóis terem vindo em grande número para a região (eram a terceira maior colônia, depois dos italianos e portugueses). A autora entrevistou diversas famílias de imigrantes e buscou dados em jornais do começo do século 20, contextualizando a imigração sem deixar de lado os acontecimentos históricos.

O caráter pioneiro do livro revela dados pouco conhecidos sobre os espanhóis, como a preocupação em manter a sua cultura viva, através da língua, da culinária e de costumes, inclusive a realização de touradas na cidade; a origem da Vila Seabra como enclave étnico de espanhóis; e o costume de se realizar casamentos dentro da própria colônia, o que também demonstra uma resistência cultural. Segundo a autora, uma de suas descobertas foi o fato dos espanhóis preferirem a região Noroeste do Estado pela facilidade na compra de terras.

• Serviço

Lançamento dos livros “Polifonia Urbana - Imagens e Representações” e “Lembranças da Imigração”, hoje, a partir das 20h, no hall do Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves”. Apoio: Edusc e Secretaria Municipal de Cultura. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 3235-1072.

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Trecho de ‘Polifonia Urbana’

“De certa maneira, nas décadas de 1950, 1960 e 1970, a figura do pioneiro em Bauru era retomada de uma tradição de memorialistas e aparecia como mítica ao explicar as origens e a suposta dinâmica da cidade (vanguarda, pujança, arrojo, modernidade), remetendo-se ao passado - cristalizando-o e negando o aflorar de outras vozes -, definindo os parâmetros dos acontecimentos no futuro e normatizando os agentes sociais no presente.

As características do pioneiro bauruense (arrojado, progressista) são parecidas com as que Pereira de Queiroz encontra no tratamento ufanista dispensado ao bandeirante paulista, que se fundava em historicidades diferentes entre os século 18 e 20. Em suas diversas fases, a imagem do bandeirante possuiu papel hierarquizador na sociedade paulista. Somente a partir da chamada “Revolução de 32”, “bandeirante” passou a ser sinônimo de paulista, perdendo a marca diferenciadora dentro da “coletividade”.

A identidade do pioneiro bauruense definia e impunha características para o habitante desta cidade; características constituídas de valores morais componentes do caráter dos indivíduos. Os homens empreendedores, tais como os políticos, os empresários e trabalhadores que incorporavam o arrojo em suas atividades e possibilitariam o “progresso” para a cidade, eram aqueles socialmente reconhecidos pelo grupo como os herdeiros dos primeiros pioneiros.

A marca de uma cidade que crescia incessantemente e estava sempre ultrapassando os seus limites era restrita àqueles que se encaixavam em tais perfis. Os personagens padronizados segundo as características dominantes eram aqueles oriundos de um determinado grupo social que, a partir do final dos anos 50, recriou e difundiu valores em torno da imagem dos “pioneiros” da cidade reconhecendo-se nela. O auto-reconhecimento implicava também marcar diferenças e hierarquias sociais em relação a outros grupos que, inclusive, não seriam considerados portadores de características “pioneiras”, seja por ausência de tradição familiar, ou em conseqüência de atributos de inclusão grupal”.

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