Bairros

Poeira provoca protesto na Pousada

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

A estiagem típica deste período do ano trouxe um novo colorido à periferia de Bauru: roupas, móveis, telefones públicos e até a brisa estão avermelhados. O tom vem da poeira levantada das ruas de terra, estopim de um protesto realizado ontem à tarde no bairro Pousada da Esperança 1. Há duas semanas, os moradores reivindicam ao poder público um caminhão-pipa para umedecer as ruas e amenizar o incômodo do pó, mas não foram atendidos.

A indisposição dos órgãos municipais somada à provocada pelas ruas ainda não asfaltadas levaram 30 pessoas a interditarem a quadra 2 da rua Joaquim Gonçalves Soriano, onde um ônibus circular permaneceu “trancado” por três horas.

“Vamos aguardar uma solução até amanhã (hoje) às 16h. Se não tiver solução, vamos prender um ônibus até às 23h”, ameaça Nilza Jacomini Belíssimo. De acordo com ela, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) orientou remeter o pedido de caminhão-pipa à Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma). Por sua vez a Semma informou que a solicitação deveria ser feita ao DAE.

“Nós não temos caminhão para isso. Só entra água potável no caminhão do DAE. Seria um desperdício (umedecer as ruas com água tratada). A Semma tem um caminhão (que pode ser abastecido) de água bruta”, informa a assessora de imprensa do DAE, Sandra Faria, ao confirmar a negativa a autarquia. No entanto, o único caminhão da Semma também utiliza água potável.

O impasse, porém, deve terminar hoje. Os secretários da Semma e da Secretaria Municipal de Obras, respectivamente Kazume Kobayashi e José Ângelo Padovan, informaram ao JC que vão unir forças para atender ainda nesta sexta-feira a reivindicação dos moradores.

Kobayahsi demonstrou preocupação em privilegiar apenas um bairro, já que todas as regiões ainda não pavimentadas enfrentam o mesmo problema.

Saúde

“O pessoal já está até acostumado com a terra. Muita gente está doente. Eu tenho rinite alérgica e estou com uma coriza constante. Durmo com uma toalha umedecida na guarda da cama e com um balde no quarto”, admite a presidente da Associação de Moradores do Ferradura Mirim, Gisele Moretti.

No Parque Jaraguá os problemas respiratórios também aumentam neste período por causa da estiagem e da poeira, diz o presidente da Associação de Moradores do Jaraguá, Luiz Carlos Guerra.

A situação o revolta porque há 26 meses, o governo estadual liberou a primeira parcela dos recursos referentes o convênio firmado pela prefeitura para a pavimentação de 34 ruas do bairro. Porém, até agora cerca de 30% do asfalto ainda não foram executados.

“Com as obras, melhoraria uns 40%. Não dá para trazer só caminhão-pipa porque são muitas ruas de terra. Quem sofre mais são as crianças e os idosos”, critica.

Independentemente da idade, quem transita no Pousada da Esperança anda pelas ruas protegendo nariz e boca dentro da roupa para respirar melhor, conta a vice-presidente da Associação de Moradores, Eva Pereira Brandão. Segundo ela, os moradores jogam água nas vias públicas à noite para contornar a situação.

“A gente acaba gastando (com água) porque está insuportável. Quando o ônibus passa é um desespero. Fica uma névoa laranja e depois roupa, orelhão, tudo, fica vermelho. A casa temos que limpar duas vezes ao dia. A gente faz o almoço e tampa a panela. Na hora de servir já dá para ver a poeira. De pisar na rua a poeira levanta”, acrescenta Belíssimo.

____________________

Clima seco continua

Há 37 dias não chove em Bauru e para piorar as previsões do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) não são muito otimistas: entre hoje e amanhã podem ocorrer chuvas isoladas, mas em quantidade insuficiente para reverter a situação de estiagem.

De acordo com o meteorologista do instituto Adelmo Correia, uma frente fria que está se deslocando pelo Estado de São Paulo provocou chuvas isoladas nas regiões Sul e Oeste, ontem. Porém, ela pode passar pela cidade sem que caia uma só gota d’água.

Ontem, a umidade relativa do ar estava em 37%, índice considerado normal para a época, quando os processos alérgicos aumentam em cerca de 40% e as gripes e viroses numa média de 15%. A maioria das vítima é formada por crianças e idosos, diz o pediatra e alergologista, Felinto dos Santos Neto.

“São os extremos, com imunidade deprimida”, explica. Para driblar os incômodos do clima seco, ele sugere que as pessoas pinguem soro nas narinas e coloquem bacias com água nos cômodos da casa ou toalhas umedecidas.

As dicas, no entanto, não devem ser acatadas por quem tem alergia provocada por ácaros, porque eles se proliferam em ambientes úmidos, adverte o médico. Nestes casos, Felinto Neto também recomenda uma vaporização realizada no banheiro.

“O que faz mal para o alérgico é a poeira domiciliar (o pó preto que fica sob os móveis) e não a de terra”, conclui.

Comentários

Comentários