O projeto “Nenhuma Criança na Rua”, lançado no final de maio em Bauru, conseguiu convencer 49 das 66 crianças e adolescentes que estavam acostumados a pedir dinheiro em semáforos, guardar carros e perambular pela cidade a voltar para a escola e freqüentar projetos sociais. Em contrapartida, o projeto oferece à cada família uma cesta básica e uma bolsa de R$ 60,00.
Agora, o desafio é mantê-los longe das ruas e convencer outros 55 a seguirem o mesmo exemplo, conta a assistente social Rosângela Maria Lenharo, funcionária da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) que trabalha no projeto. “Quarenta e nove crianças que estavam nas ruas no início do ano passado foram encaminhadas para escolas e projetos sociais em seis entidades, mas já temos outras 55 na mesma situação”, conta.
Mas o desafio não é só para a coordenação do projeto: ontem à tarde, por exemplo, uma das crianças já atendidas, que voltou para a escola e agora participa de um projeto social, ouvia duas amigas da rua em que mora contando que à noite iriam para a avenida Getúlio Vargas pedir dinheiro. “A gente ganha uns R$ 10,00, R$ 15,00 por noite”, conta uma delas que tem 14 anos e abandonou a escola.
Como a amiga, que também tem 14 anos e não estuda, a outra afirma que leva boa parte do dinheiro para casa. “Tenho sete irmãos e só meu padrasto está trabalhando”. relata. A vizinha, de 11 anos, que, por estar no projeto “Nenhuma Criança na Rua” pela manhã freqüenta um projeto social onde aprende artesanato e à tarde vai à escola, diz que prefere a atual rotina.
“Agora está melhor. Estou aprendendo coisas”, afirma ela, sem entrar em detalhes. Na casa, ela mostra no armário alimentos da cesta básica que a família está recebendo do projeto. “Antes eu trazia para casa dinheiro que ganhava no semáforo. Agora, minha mãe recebe a cesta básica “, conta ela que tem quatro irmãos mais novos e mora com a mãe.
A família ainda divide a casa de dois cômodos, no Núcleo Fortunato Rocha Lima, com outros parentes. Ninguém da família está trabalhando. “Quando a gente está precisando muito, um tio meu ajuda”, diz.
Como exigência do projeto, a mãe dela freqüenta um curso de geração de renda oferecido no Núcleo de Apoio Sócio-Familiar (NAF) do Parque Jaraguá. “Minha mãe já aprendeu a fazer bolsa, chapéu e está tentando vender”, conta. A assistente social da Sebes ressalta que o projeto exige que a família freqüente cursos de geração de renda para, futuramente, poder manter-se sem a bolsa-auxílio do programa.
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A iniciativa
O projeto “Nenhuma Criança na Rua” é fruto de uma parceria entre Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente, Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) e Grupo Empresarial de Apoio à Criança e Adolescente de Bauru (GEA). Além de verba municipal, o projeto conta com recursos da campanha da destinação do Imposto de Renda, feita pelo GEA, e da Associação das Entidades Assistenciais e Promoção Social, que neste ano reservou R$ 20 mil para a iniciativa.
Além do trabalho com as crianças encontradas nas ruas e suas famílias, o projeto prevê outras ações para combater a mendicância. Uma delas é a campanha de conscientização para que a população não dê esmolas nas ruas. Para isso, o projeto “Nenhuma Criança na Rua” instalou outdoors na cidade e está fazendo adesivos para serem afixados nos veículos.
O projeto “Nenhuma Criança na Rua” surgiu após a Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE) ter constatado, no início do ano passado, a existência de 66 crianças e adolescentes nas ruas de mendicância e em situação de risco.